quinta-feira, julho 28, 2005

Ainda me chegam visitas ao Ma-Schamba através deste Machamba. Assim sendo permito-me pedir aos bloguistas que tiveram a gentileza de estabelecer ligação a este blog que dobrem tamanha simpatia e que actualizem o endereço nas ligações, directo ao activo Ma-Schamba [ www.maschamba.weblog.com.pt]. Grato, claro.

domingo, abril 10, 2005

Este blog regressa ao Ma-Schamba original.

quarta-feira, abril 06, 2005

Ainda lusofonia

Eu repito-me no assunto. Esquece-se Macau? Ali também é lusofonia. Ou [Áfinal?!] o facto da China ser uma "civilização" o retira deste campo? Pois ali há um húmus outro? Superior ao dos outros lusófonos extra-ibéricos?

Esta também é uma pergunta sobre a especificidade lusófona.

E mais lusofonia

O WR lembra, a quem se esquece no calor da argumentação, que Timor-Leste é lusófono, "pois estamos a falar de realidades muito diversas até do ponto de vista identitário, mas que possuem de comum a língua, no que isso implica de atributo cultural essencial".

Esta é uma caracterização da lusofonia.

Achega à lusofonia

O WR discute a lusofonia. E coloca uma questão que dá pano para mangas, no seu desenvolvimento e quanto aos seus pressupostos: "O que fica no ar é a ideia de sabermos em que medida a comunhão desses obstáculos ao desenvolvimento, de natureza cultural, não resultará de uma História comum aos povos da lusofonia.".

Esta é uma pergunta sobre a especificidade lusófona.

Mais vale tarde

O Forum Comunitário aniversariou a semana passada. Passou-me. Fica a vénia, ainda que atrasada.

terça-feira, abril 05, 2005

42 minutos, na sala ao lado ouço que o telejornal mudou de assunto, já não o funeral do Papa.

- Inês, mudaram?
- Sim, futebol, é o Sporting!
(o meu, diga-se)

Urge demitir a direcção de informação da RTP. E nem é preciso argumentar.

A fé é bela

4 milhões de peregrinos esperados para o funeral. 20 000 pessoas por hora na Basílica, 400 000 por dia. Horas a fio, perigando a exaustão, esperando para a homenagem individual. Milhões em oração. A fé é bela!

Se fosse no Magrebe, no Paquistão, na Índia Hindu, noutro longe qualquer, o que se diria do fanatismo "daquela gente". Talvez não em público, mas pelo menos no resmungo do sofá, em família. Até com nojo.
RTP(-África), o telejornal, para saber algo do mundo (essa utopia). 37 minutos depois ainda os preparativos do funeral do Papa.

Urge demitir a direcção de informação. E nem é necessário argumentar.

Beatos

Tenho lido bastantes asneiras raivosas sobre o falecido Papa (esta merdosfera anda cada vez pior). Sim, também acho que o homem era supra-supersticioso, sim também me torço à Opus Dei [oops, ontem contra os maçons, hoje contra a obra, é melhor pedir outra nacionalidade]. Sim, também sorri, com arrghh, na rábula do 3º mistério [e aviso o crente que aqui passa, acho Fátima um espanto, um mau espanto, como é possível tudo aquilo?].

Mas nessa fúria anti-papa transparece muito ateu "não praticante" - as entranhas mexem-lhes à imagem da Igreja, nela se centram, a ela querem pertencer (moldar algo é pertencer, como é óbvio). Um bom filão para extremas unções. Arrependimentos à última hora, gemidos em busca do rebanho.

Paleio, paleio, gritos anti-cristo. Mas muito cagaço da solidão do ateu. Porra, vão à missa. Que rezem por uma nova Igreja Católica, à imagem deles, aos valores deles.

Cheínhos de causas. Bondosazinhas. Correctazinhas. Dedinhos espetadinhos, denunciadorzinhos.

Que beatos.

O mundo é pequeno

Incrível, encontro no Forever Pemba, cujo autor não conheço, velhas fotos minhas em Pemba.

(eu estou de chapéu)

segunda-feira, abril 04, 2005

Maldita Maçonaria

[Nestes tempos em que tanto blog grita impropérios contra o Papado, tal como se este fosse o Anti-Cristo...]

Abomino a Maçonaria, essa sociedade (ex)secreta, inimiga da sociedade aberta, superstição falsamente racionalista, vergonha e obstáculo do meu país. [Os custos que um post destes terá!, coisa kamikaze para um português do vulgo]. A la Custer, no asséptico de hoje, "o único maçónico bom é um maçónico arrumado" [adj. posto de lado; posto em ordem; guardado (Dicionário Universal da Língua Portuguesa, Texto Editora, 1995, 1ª edição)].

E este Blogger, com o seu constante

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transpira-se maçónico, uma maçonaria actualizada, tecnocratizada, com o tal Arquitecto substituído por um bando (politeísta) de engenheiros. Tremo de cada vez que isto me entra em casa, vero vírus via ecrã.

Cansei-me destes espíritos malfazejos, deste terror quase quotidiano decidi-me, antes esses leões esfaimados, as hienas traiçoeiras, vou sair savana fora, ainda que já estação seca, em fuga desta religião do terror anónimo. Tentarei, velho solitário, seguir os trilhos daquele meu rebanho. No qual, pelo menos, conhecemos pelo nome o nosso Deus. Coisas de rebanho civilizado.

Que o meu Oleiro me proteja, é o desejo. E a prece.

Jornalistas a olhar blogs

Mais um artigo sobre blogs. Mais um artigo de jornalista e/ou colunista, decerto. É incrível a quantidade de textos similares que vão brotando. Todos enfatizam o umbilical cordão entre jornalismo e bloguismo, e respectivas influências.

Claro que muita coisa não li, mas continua-me a surpreender, no meio da prosa sobre o bloguismo jornalístico continuo a não ler a dimensão crucial: a auto-edição, prosa ficcional, crónica, fotografia, colectânea, poesia, diário. Tudo isso passa ao lado das teclas jornalísticas.

O centro do mundo, são eles, os dos jornais e afins.

Tempos houve em que não eram notícia. Tempos há em que a notícia são eles?

Calma

Sobre a crítica recebida à lusofonia

Ali abaixo coloquei uma recensão de Igor Machado, decerto já antiga, que me foi enviada pelo leitor Lucas Tedeski, dedicada ao pequeno livro de Alfredo Margarido que antes amplamente citei. Não será particularmente interessante discutir uma recensão crítica de um livro. Mas já que tenho vindo a discutir "lusofonia", e tendo o referido texto aqui sido comentado de forma bastante viva, interessa-me deixar mais algo sobre a matéria.

1. No seio de uma recensão avisada ao texto há uma crítica que considero muito acertada: Margarido (talvez provocatoriamente) anuncia que o português do Brasil será o futuro (a "língua oficial") porque dotado de maior "eroticidade" - já quando li o livro, aquando da sua edição, este argumento me pareceu reprodutor das imagens preconceituosas (que alhures o autor procura desmascarar). Aqui o comentário de Igor Machado é muito esclarecido. Com efeito de onde se pode retirar o carácter "erótico" de qualquer língua ou da sua particular apropriação/construção?

[Lateralmente, acho que esta afirmação de Margarido poderá estar ligada, pese embora a estatura do autor (assisti em Maputo em 1998 a uma sua conferência absolutamente luminosa, um dos grandes momentos intelectuais de que disfrutei nos últimos anos), às perversões do modelo "ensaio". Confesso a minha incomodidade com este tipo de discursos, em que a recorrente densidade das argumentações não se apoia em veras fundamentações que ultrapassem a opinião autoral, o que recorrentemente enfraquece o conteúdo - há algum tempo ecoei, ligeiramente, o meu espanto com o recente e muito celebrado livro de José Gil que surge com paradoxos semelhantes. E daí ter esperado com interesse a discussão pública que o Bloguítica promoveu.]

2. Igor Machado sublinha a crítica à lusofonia por não ser acompanhada de uma política portuguesa de abertura de fronteiras aos imigrantes dos países ex-colónias, algo que corresponde à visão de Margarido. Para mim uma das dificuldades nesse livro, pois exigir uma automática relação entre uma visão "lusófona" e uma abertura de fronteiras, e denunciar a inexistência dessa correlação, é argumento frágil, e não fundamentado. Com efeito, não há nada nas formulações "lusófonas" que exija essa obrigatoriedade. Pode-se depreendê-la, mas nada a exige. Enfim, é uma denúncia opinativa, que decorre de uma pressuposição de quem denuncia. Nada mais. E portanto, neste caso, um argumento algo falho. Porque moralizante.

3. O interessante é que, neste caso, a argumentação do livro e o enfoque (voraz) da recensão foram ultrapassadas pela realidade posterior. Nisso demonstrando não só alguma fragilidade das críticas explícitas, como também, e fundamentalmente, da própria visão lusófona.

Com efeito a política de facilitação inter-migracional foi encetada pelo Estado português (o visado nas referidas críticas), com a sua proposta de "cidadania lusófona". A qual foi recusada por intervenção dos maiores Estados africanos da CPLP. Obviamente chumbada, diga-se, pois é incompreensível como a proposta chegou a ser apresentada na Reunião de Chefes de Estado (2001 ou 2002), uma falha clamorosa de avaliação do proponente.

Este facto é interessante não só por fazer estremecer a argumentação crítica ("denunciadora") de autor e de recenseador.

É interessante por dois motivos, esclarecedores:

- porque denota a inexistência de uma concepção universal e de uma vontade universal de "cidadania lusófona", de aceitação da "lusofonia";

- e, a um outro nível mais pragmático, denota também que essas críticas, apenas baseadas na ideia da vontade / urgência na imigração para Portugal, são extremamente contextualizadas - talvez fundamentais nas populações da Guiné-Bissau, de alguma brasileira dos anos 90 e talvez 00,no caso cabo-verdiano, porventura representadas/suportadas pelos seus governos. Mas não nos casos angolanos e moçambicanos, tanto ao nível da sua representação estatal, como da realidade dos seus movimentos migratórios efectivos ou ambicionados. Ou seja, o enfoque político dessas críticas está errado, porque absolutizado. Porque julgando as dinâmicas políticas como padronizadas, centradas num desejo de Portugal destino. Interessante como a crítica ao "lusocentrismo" lusófono é ela própria (na sua vertigem ideológica?) também "lusocentrada".

Já agora, deixe-se perceber que o anúncio dessa proposta de "Cidadania Lusófona", viabilizadora de uma maior abertura recíproca à emigração inter-CPLP, foi-me a mim (e decerto a tantos outros) espantosa. Como foi possível pensar que os Estados da África Austral iriam permitir nos tempos actuais a facilitação da putativa (ainda que muito pouco provável) emigração de sempre anunciado quase meio milhão de sul-africanos de origem portuguesa para Angola e Moçambique? Esta minha referência prende-se ainda, e sempre, à afirmação da "irrealidade" da leitura lusófona. Como diz Braga de Macedo no texto que abaixo cito: No imaginário lusófono, eles estão juntos na cultura e nos afectos: um é velho, outro é grande, os outros precisam de ajuda para crescer. Só que a história e geografia assim conotadas escondem o potencial de desenvolvimento porque não apreendem a governação. Penso que este exemplo é curial. No desvendar do irrealismo (anti-empírico) lusófono. Mas também no vazio das críticas meramente ideológicas, assim nada mais do que preconceituosas.

5. Decerto que por desconhecimento da realidade portuguesa o recenseador anuncia a "lusofonia" como discurso dos "intelectuais orgânicos" entre PS e extrema-direita (o que denota a sua filiação ideológica, diga-se). Mas está errado. É certo que a intelectualidade socialista (orgânica ou não) reproduziu à exaustão o discurso lusófono. Algo a que não poderá deixar de estar ligada alguma inércia histórica: o PS chegou ao poder aquando do lançamento da CPLP, difícil (mas teria sido tão lúcido!) seria associar a criação institucional ao depurar do discurso. Mas o mesmo não poderá ser dito à sua direita, apesar de alguns grandes nomes veículos do projecto lusófono. Diga-se que a direita portuguesa, e algum centro, ainda não cumpriu o seu "luto" (Margarido dixit) colonial, e daí a extrema dificuldade em assumirem um discurso lusófono, que é por essência uma retórica pós-colonial. E mais, à esquerda do PS, implícita ou explicitamente, o discurso lusófono sedimenta-se também, por via da aceitação da retórica, por incompreensão e irreflexão da sua natureza, por desconhecimento do seu eco, e por (ignaro) "companheirismo de caminhos". Em suma, contrariamente ao que Machado propõe, a lusofonia não é em Portugal um discurso de direita (e de um PS no poder). É (ou foi) um tema transversal, mas mais presente no polo esquerdo do discurso identitário / prospectivo nacional.

6. Finalmente, para além da recensão que Machado realiza, há, e bem mais do que implícito, um discurso que associa a crítica à lusofonia com uma crítica ao colonialismo. Como se esta fosse mera continuação, ou sua tentativa. Incapaz de compreender as diferenças históricas (porventura porque desconhecedor dos contextos) Machado transpira no seu texto um profundo anti-portuguesismo, um eco de colonizado.

Confesso que sempre me espanta o discurso anti-colonial brasileiro, em particular o afã anti-português, o qual decerto não é universal, mas não se restringe a alguns recenseadores (e até a pequenos comentadores in-blog): Gilberto Gil, ministro, dizia no ano passado em Maputo que os portugueses tinham morto milhões de índios no Brasil. Eu, contrariamente a Gil, já olhei para o mapa histórico do Brasil. Que eu saiba a efectiva penetração na floresta decorreu bem para além de 1820. (E continua...) Se fosse o músico significaria nada mais do que eco [tal e qual Caetano Veloso no seu ditirambo anti-português de há alguns anos atrás], mas um ministro brasileiro em África com este tipo de discurso não é inocente (ainda que o ministro seja Gil).

Por isso, cada vez que ouço o gemer brasileiro do sofrimento colonial lembro-me de um texto de Christian Geffray, Le lusotropicalisme comme discours de l’amour dans la servitude, no qual ele dá conta do seu espanto com a reclamação de uma identidade colonizada brasileira. Diz (convém ler o texto todo): "les peuples américains...ou du Brésil, etc. sont des peuples de colonisateurs sans colonisés. Ils occupent des territoires qui peuvent aujourd’hui encore abriter des populations que les ont précédés dans les temps sur le territoire, mas ces véritables "colonisés", si l’on peut dire, n’ont e n’auront jamais d’accès possible à la representation, sinon à la condition, de colonisés" (364).

Para um debate académico sobre construção de identidades esta é uma temática apaixonante. Mas numa deriva polemista, ou para sua utilização política, esta ladaínha brasileira é insuportável.
Esta é a minha vénia de ateu.

domingo, abril 03, 2005

Arquivo Lusofonia

O Lusofonia está a constituir um cuidado arquivo de textos bloguísticos e blogados relativos à "lusofonia". A acompanhar e a agradecer.
Babalaza: um novo blog sobre Moçambique.

sábado, abril 02, 2005

Desde há muito que vou visitando o Quase em Português de Lutz Bruckelmann, arquitecto alemão vivendo em Portugal. Ao princípio fui agradado pelo bom gosto na escolha das suas playmates, pelo saber duvidar dos textos e pela ponta de suave ironia que também se apresentava (veja-se o próprio nome), coisas próprias da utopia de procurar saber. Tudo isso potenciado pela minha simpatia por encontrar um meteco, tal qual eu. Um meteco livre, já o referi (na minha brincadeira "Gandulas") - e acho que a existência de um blog como o Quase em Português é uma excelência para o meu país.

Com o tempo passou-me essa tal solidariedade de meteco. Pois foi-se tornando desnecessária como potenciadora. É que o Quase em Português passou, por si só, a ser o meu blog preferido, e hoje em dia divirto-me mais comentando (n)os textos do Lutz do que arroteando esta machamba.

Ali em baixo (sem link, tal a parvoíce) um ditoso "anonymous" bota comentário invectivando um anterior comentário que o Lutz aqui colocou. Por todas as razões (conteúdo e objecto) é uma imbecilidade. E ser invectivado por um imbecil não suja. Mas como foi em minha casa irrita-me. Suca, anonymous, suca.

sexta-feira, abril 01, 2005

Abaixo referi o turbo-leituras, a propósito de uma referência ao Machamba n' O Acidental - foi uma enxurrada de visitas.

Um dos meus turbo-leituras foi o Luís Ene, em tempos de andarmos a mostrar a cara ["dar a cara"?]. Agora publicou o Mil e Uma Pequenas Histórias (Leiturascom.net, 2005) - se fores à technorati lê lá este abraço.

E matou o Ene Coisas, que agonizava devagarinho há algum tempo [suicídio assistido?, eutanásia?]. Vai-me fazer falta aquele turbo-leitor. Mas como me especializei em blogopáscoas acredito na ressureição. Até já!

Política portuguesa

Manuel Maria Carrilho é candidato a presidente da Câmara Municipal da minha Lisboa. Em vários blogs (clic-clic) leio referências jocosas à sua mulher, ao seu casamento. Deselegante? Não é isso.

Tentar menosprezar um homem porque é casado com uma mulher verdadeiramente bonita não é uma deselegância. É uma total imbecilidade. Um atraso mental.

O ridículo não mata, claro. Esmaga. E, obviamente, não aparece no espelho. Dos ridículos.
Pois é, apresentei-me algo desenfiado, laivos de discrição burguesa, se calhar. [Como se houvesse alguma discrição neste histrionismo bloguístico, vã vaidade...]

Mas se imaginasse a quantidade de leitores que uma singela referência representa [o tracking, o tracking...] tinha começado por me apresentar por aí, até de chapéu na mão.

Sois um turbo-leituras de primeira, é o que lhe digo. A agradecer.

E muitos parabéns, revista e livro: lembrai-vos que sois apenas humanos.

Pequeno Quotidiano

Uma sala de aulas pejada de moscas, nunca tal me tinha acontecido. Elas rodeando-me, amoscando-me.

E assim, nesta manhã, enquanto as tentava espantar, regressei aquele menino até tímido, inseguro. Convicto de que os alunos, vendo-me em tais más-moscas, não podiam deixar de pensar "que merda de professor"...
Para quem não tem acompanhado: Mia Couto no Ideias Para Debate [e neste último pequeno texto em cúmulo de elegância].

quinta-feira, março 31, 2005

musiquices

Estou mais sossegado: confesso que cheguei a temer que fosse, apenas, o meu muito proclamado mau-feitio.
[Emenda: Um leitor do Machamba acaba de me enviar um texto da autoria de Igor José de Renó Machado. Uma recensão crítica ao livro de Alfredo Margarido (2000), "A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses".

Como aqui tenho vindo a escrever sobre o asssunto "lusofonia" julgo de interesse colocar o recém-chegado texto. Com alguns pontos não concordo, com algum enfoque discordo radicalmente. Mas isso é natural, a cada um sua sentença. Mais tarde direi das minhas discordâncias. Às visitas já cansadas deste tema as minhas desculpas, é só clicarem "fuga". Aos que têm apreço por este "abaixismo" à mediocridade aparatchikista, obrigado.

[Actualização: Lutz Bruckelmann comentou algo que justifica leitura]

Eis:


MARGARIDO, Alfredo. 2000. A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses. Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas. 89 pp.
Igor José de Renó Machado
Doutorando, Unicamp

O livro A Lusofonia e os Lusófonos é um libelo contra uma forma hegemônica do pensamento social português, representada por intelectuais, colunistas de importantes jornais e intelectuais orgânicos do partido do governo (o PS) e do leque político que se estende até a extrema-direita. Sob uma ironia refinada e uma crueza ácida, Margarido põe à mostra as entranhas nada gloriosas dessa forma de pensamento que domina a Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa (CPLP) e a diplomacia portuguesa e que, embora ignorada no Brasil (como, ademais, o próprio Portugal), é insidiosa e efetiva na relação de Portugal com os países africanos que se livraram do jugo português após sangrentas guerras coloniais. É insidiosa também na organização interna da imigração para Portugal que, de acordo com as regras da União Européia, fecha as portas aos imigrantes das ex-colônias. Nesse sentido, a lusofonia afeta diretamente a vida dos cerca de 50 mil brasileiros imigrantes em Portugal, se contarmos apenas os números oficiais.

Margarido considera que a partir de 1960 se deu o rompimento de Portugal com o Atlântico, momento marcado pelas guerras coloniais, imigração e pelo nacionalismo racista. A lusofonia surge como ferramenta ideológica para recuperar esse espaço atlântico, apagando a história colonial e as relações polêmicas com os povos de língua portuguesa, mediante a tentativa de controle da língua "mãe". A importância da língua aumenta apenas quando desaparece o controle direto das populações e, após 1974, quando se lhe confere o papel que foi dos territórios colonizados: o de recuperar a grandeza portuguesa. Ao mesmo tempo, controlam-se cada vez mais as populações "residuais" dos tempos coloniais - os imigrantes - em Portugal e no restante da Europa. Exibe-se a contradição entre a pretensão de um "espaço lusófono" e o exagero da submissão portuguesa às leis de Schengen, que cria uma Europa racista, eugênica e desumanizada. E essa violência racista é dirigida, em cada país, a grupos específicos (em Portugal, são os cabo-verdianos o alvo preferencial do racismo, diz o autor, mas podemos acrescentar: os moçambicanos, guineenses e brasileiros).

O discurso da lusofonia encampa um projeto missionário de "civilização" após as guerras coloniais (nesse sentido, pós-colonial), agora focado na língua. O primeiro sintoma dessa virada acontece com a mudança de vocabulário após as independências africanas, similar à francofonia, criando um suposto "espaço lusófono" e uma história comum cor-de-rosa. A contradição aparente é que o atual europeísmo da União Européia condena os particularismos nacionais (principalmente o dos países mais pobres da União), o que impede a formação de espaços lusófonos, francófonos ou hispanófonos reais, como fica claro pelas políticas de controle de imigração cada vez mais duras e desumanas na Europa. Só há e só pode haver espaço lusófono em um discurso mítico.

Margarido critica a visão lusófona do passado, como se o "Outro" só existisse após o encontro com algum navegador português, esquecendo-se a outra face do encontro: a invasão. Além disso, faz digressões sobre o trauma ocorrido com a independência do Brasil em 1822, que levou o discurso colonial português a reafirmar os "direitos" às demais colônias e populações. Esse trauma surge e ressurge de várias maneiras: ou escamoteando a independência brasileira como sendo um fator português, dado que foi proclamada por D. Pedro I, ou vendo no Brasil um Estado-filho ou Estado-irmão mais novo, implicando sempre laços que devem manter tais países unidos (se o Brasil continuar sempre infantilizado).

A partir da década de 20, os nacionalistas brasileiros passam a se preocupar com o povo, e Gilberto Freyre vai derivar o Brasil do apetite sexual português. Mas o luso-tropicalismo só existe em Portugal no pós-45, quando o que já era ruim é mutilado para servir à hegemonia colonial portuguesa, fechando os olhos a toda sorte de violências (que culminaram nas malfadadas guerras coloniais), barrando inclusive a possibilidade de modernização do país. Aqui não se pode deixar de dizer que Margarido produz um "nacionalismo alternativo", que luta contra a lusofonia para que Portugal chegue à modernidade. Como um exilado permanente, lecionando na França, e como um dos principais críticos do colonialismo português, Margarido pode ser visto como um intelectual "contra-hegemônico".

Outra contradição da lusofonia é a atual preocupação com a língua, que nunca foi objeto de cuidados quando da época colonial. No Brasil e nos países africanos (até 1961) não se criaram universidades e a política de não-educação era uma forma de manter o estatuto de inferioridade do colonizado. Os africanos sem escrita eram considerados "fora da história" e só "entram na história através das formas de dominação" (:51). A língua passa a ser, depois de ignorada sistematicamente pelo colonialismo tardio português, o elemento de continuidade da dominação colonial, e "a exacerbação da 'lusofonia' assenta nesse estrume teórico" (:57). Recorrendo a Saussure, o autor demonstra como uma comunidade lingüística é baseada na religião, convivência, defesa comum etc., o que é definido como etnismo. A relação desse etnismo com a língua é uma relação de reciprocidade, ou seja, é a relação social que tende a criar a língua, portanto, a língua não pode ser a pátria de ninguém. Essa fórmula pessoana apaga o peso dos "costumes" nas considerações sobre a língua, fazendo com que os povos com outros costumes possam ser lusófonos apenas por falarem português (minha pátria é minha língua... mas quem é que manda nessa pátria?). A idéia de uma pátria lingüística é uma hierarquia que apenas repõe aquela do Império.

É interessante ver o papel da língua brasileira em Portugal, através do avanço da mídia brasileira na Lusitânia. Na verdade, essa presença influenciadora é profundamente incômoda para a intelectualidade portuguesa, que acaba por reduzi-la a um sinal da "criatividade" natural do brasileiro. Esse falar brasileiro "criativizado" pelos portugueses repõe o mesmo preconceito lusófono: a criatividade e a criação artística são o outro lado da selvageria e, portanto, a natural criatividade do brasileiro é mais um sintoma de sua inferioridade intelectual, pois ao criativo é negada a razão, como forma de tentar conter dentro das estruturas de um lusofonismo detestável a presença da fala brasileira.

Aqui se pode questionar Margarido, mesmo reconhecendo a irônica provocação que é elevar a língua brasileira ao status de "língua oficial" da suposta lusofonia. Para tentar desmontar e provocar a intelectualidade portuguesa, profundamente incomodada com a presença do falar brasileiro, Margarido argumenta que é a língua brasileira a mais bonita, maleável e "erótica" e, portanto, a única candidata a uma suposta língua lusófona. É questionável recorrer, para criticar a lusofonia, à imagem estereotipada que ela própria reproduz, ao acentuar o caráter "erótico" do português falado no Brasil. Uma das características da lusofonia é a separação entre civilização e selvageria, na qual Portugal representa o processo civilizatório e a língua equivale a "civilizar". Se assim é, o apelo à "natureza erótica" da fala do brasileiro é mais um recurso, mesmo quando usado ironicamente, à lusofonia, pois o brasileiro erotizado é rebaixado ao pólo "selvagem" dessa divisão básica do discurso lusófono. De fato, não é a fala do brasileiro que é erótica (afinal, o que é isso?), mas é porque ele é visto de modo erotizado que a fala é considerada erótica. Isto por si só dá a entender ao leitor brasileiro a força desse discurso lusófono em Portugal, pois nem mesmo seu crítico mais ácido consegue se desvencilhar dele completamente.

Ora, a lusofonia não passa de um "doce paraíso da dominação lingüística que constitui agora uma arma onde se podem medir as pulsões neo-colonialistas que caracterizam aqueles que não conseguiram ainda renunciar à certeza de que os africanos [e brasileiros, acrescentaria] só podem ser inferiores" (:71). A lusofonia serve como ferramenta de manutenção das distâncias racistas em que se baseou o discurso colonial após seu fim sangrento, apagando o passado e recuperando a antiga hegemonia. O que Margarido não diz explicitamente, mas que se pode derivar de seus argumentos, é como serve a lusofonia de estrutura da ordem hierárquica que escalona os imigrantes, "resíduos" do Império que procuram em Portugal fugir ao desastre que em casa foi a herança portuguesa. É uma suprema (e dolorida) ironia que os imigrantes sirvam como o campo preferencial de reordenação simbólica da ordem imperial.

Embora ao leitor brasileiro o tema da lusofonia debatido por Margarido praticamente não faça o menor sentido (o que é ótimo e dói nos ouvidos portugueses), para os países africanos recém-saídos do - e destruídos pelo - período colonial, a temática lusófona é, no mínimo, repugnante. Mas é preciso alertar ao potencial público objeto da ideologia "lusófona", os falantes de português, a não jogar o jogo da lusofonia, seja por subordinação causada pela miséria (no caso de Moçambique, Angola, São Tomé, Cabo Verde e Guiné), seja por desprezo (no caso do Brasil). Entre outras causas, é justamente por esse grande desprezo da opinião pública brasileira, que o mecanismo da CPLP pode curvar-se ao lusofonismo tacanho do governo português. Para imigrantes brasileiros e africanos das ex-colônias, entretanto, o discurso da lusofonia é uma armadilha terrível, pois o espaço lusófono, como mito que é, nunca se realizará na prática. A busca por direitos "especiais" baseados na lusofonia por parte de associações imigrantes oriundas do desastre colonial português, além de infecunda, apenas reforça essa "ideologia-estrume" (no dizer de Margarido).

quarta-feira, março 30, 2005

mais...lusofonia [agente de desconhecimento]

"Ausente do obsidiante mundo dos padrões, a lusofonia não tem imagem estatística. E sem imagem estatística, não se existe na globalização comercial e financeira. Uma razão para esta inexistência global é julgarmos conhecer os oito países membros da CPLP como as nossas mãos. No imaginário lusófono, eles estão juntos na cultura e nos afectos: um é velho, outro é grande, os outros precisam de ajuda para crescer. Só que a história e geografia assim conotadas escondem o potencial de desenvolvimento porque não apreendem a governação (...)"

[Braga de Macedo, "Governação no Espaço de Língua Portuguesa" in Mediafax, nº 3123, 27.09.04]
Já agora no Klepsýdra um pequeno texto onde mais uma vez se desmonta o actual anti-francesismo português. No blogomundo que eu conheço é no Klepsýdra que mais se tem criticado essa pobreza do raciocínio anti-francês que grassa no meu país (ou blogopaís) e, surpreendentemente (para quem conheça algo da história do pensamento político europeu), mais no centro e direita - um filoactualrepublicanismo que nada mais é do que a mediatização da reflexão [think fast, think light].

Também por isso, obrigado Klepsýdra.
O Rui Curado Silva, avisado, assinala (e nisso aprendo, e recuo, saudoso) o centenário da morte do gigante Jules Verne. Deixa ele ainda ligação para local alusivo.

Obrigado Klepsýdra.

segunda-feira, março 28, 2005

O jornal Zambeze passou a ter edição diária informática.
O Kim (assim mesmo, à Kypling) saúda o neo-Machamba, recordando uma velha provocação [tão velha que já nem sei quem lançou a primeira pedra, o que para o caso também não interessa]: avançar com um blog colectivo sobre os Olivais. Um mundo, o nosso bairro. Ou, mais certeiramente, um Alcácer-Quibir? Gente provocada e provocável não falta, aqui no bloguismo. Que eu conheça estão o Apenas Mais Um, o Oceanus Occidentalis, o Povo de Bahá/Antigamente, tudo dos Olivais-Sul, talvez haja mais, até lá do Norte.

Assim, a ver se agito as mentes memorialistas, aqui deixo um texto antigo que vem dos fundos da arca Ma-schamba. É um bocado da minha juventude (e não só) lá nos bairros, nos tempos do entre o 21 e o recolha a Cabo Ruivo.

E a seguir, alguém se chega à frente?



OLIVAIS

Em memória do Zé Monteiro, Senhor e Iconoclasta

O primeiro tipo que vi a xutar foi o J. Keke, para aí há uns 20 anos, estávamos todos na gruta do Venâncio. O Keke apareceu a pedir para dar lá o caldo e entrámos todos, a pensar que se ia fumar um charro. Ele não gostou, e eu também não que seringas nunca foi comigo, mas ainda precisou de ajuda para o garrote, hesitámos, ficámo-nos e foi a Nuxa que os teve para se chegar à frente. O Keke era da geração mais velha, junkie de sapato italiano, bem penteado, andar balançante e inchado, olho arqueado, tipo bonitão piroso. Depois a vida foi-lhe piorando, baldou-se para o estrangeiro constava que em curas, e um dia morreu em Itália de um tiro na cabeça. É certo que muitos anos depois, eu já trintão no café do Pinto, e ele entra-me, igual a sempre, todo atilado a pedir uma bica. E lá ficou, sorte dele. Outros morreram assim, também ao Persio lho aconteceu lá pelas vindimas estrangeiras, último refúgio de uns quantos, e estou eu a almoçar numa tasca com o coronel e o gajo a entrar a dizer que não está nada morto, e se pode almoçar connosco. Mas não estava lá muito bem, e afinal sempre se morreu passados uns tempos. E o Zombie, verdadeira série B, um tipo altíssimo e magérrimo, todo baço do cinzento que era, assim alcunhado porque quando morreu de Od decidiu-se a acordar na morgue onde, contavam, causou um grande impressão, e até susto, do feio que era.

Nos xutos perdeu-se muita gente, alguns resistiram anos a fio e depois limparam-se, até era engraçado nas imperiais da esplanada e eles, sumol de ananás, limpinhos, a contarem das dores das curas. Outros foram morrendo, de amigos amigos assim só perdi o Zé M. que está aí na epígrafe, um Senhor que me faz saudades, Átila da retórica a erva não nascia sob as suas palavras. Outros perdi de outra maneira, estão vivos mas o seu desatino separou-nos, que se aprende a não ter paciência para os agarrados, alapam-se mesmo, só tantos anos depois percebi que quais matacanhas, que é bicho que nem conhecia à altura.

Quem cresceu nos Olivais sabe bem o que era a mistura de gentes, que era o que tinha a piada, foi o que retirámos do Salazar, que foi quem inventou o bairro, uma sopa de classes queria ele, a ver se melhorava o tempero, o dele claro está. Já aos 9 anos se saía da carrinha do Valsassina para a pedrada com os ciganos e havia quem logo fizesse alianças de classe com o Chica e o Pimenta, que penso perdurarem até hoje, caso seja necessário. Quando chegados a crescidos isso dá-nos um grande treino na vida, apesar das surpresas! E aprendemos que as drogas são como o futebol e a caça, os índios vêm de todas os estratos.

Lá pelos finais do liceu, quando tocou a rebate por causa das médias, havia imensa gente junta, nem se sabia bem como, que aquilo éramos aos magotes, saímos de todos os recantos. E também havia muito produto, as mercearias não faltavam, lá no Gordo, nos Candeeiros, no Brisa, nos Viveiros, no Ferrador. As mais pesadas diziam que era no Cambodja e no Modesto mas aí só ia quem conhecia e os tinha no sítio. E já nem falo do Comboio Parado e do Vietname, ambos lá para a Cidade da Beira, mas a estas últimas nunca me cheguei, que essa era zona nada segura para nós, nunca percebi bem porquê, falta dos contactos certos, penso eu mas só hoje.

Da geração mais velha alguns já andavam aflitos com a heroína, o cavalo como dizia a xunga dos dealers. O ácido é que era coisa de filme, sabia-se que existia mas não era usual, e o que aparecia era só estricnina. Mais tarde fomos ao Burroughs e afins saber como aquilo funcionava. Fomos mesmo uma geração pós-acido e pré-pastilhas, essas que lá para os 90s puseram Lisboa aos pulos de madrugada com músicas que me tornaram avô, que aquilo era só barulho, e ainda para mais usada por gentes que só bebiam água, que desperdício de noites.

No início dos 80s foi a era dos drunfos, o ácido dos pobres. Noites quentes pelos cafés com dezenas de tipos meio aos gritos meio aos grunhidos, um bazar de comprimidos onde o rei era o Espanhol, um celta sem dentes, histriónico. Aí o pessoal graduava-se, o máximo era quem arranjava as panteras cor-de-rosa, o grande somio, coisa de tráfico, mas os mais bimbos ficavam-se nas farmácias das mãezinhas, as cujas iam esquecendo os maridos ausentes ou arredios à pala dos roips ou mandraxs, uma porra porque ainda que nos dessem ganza tornavam-nos amnésicos. E era assim, erravam grupos anestesiados, nada para lembrar no dia seguinte, excepto pelo sóbrio que ia para tomar conta, quando o havia disponível. Acho que isso decaíu quando o Chico dos Drunfos se deixou morrer atropelado em plena Av. de Roma. No meio disto tudo usavam-se speeds, mais legítimos porque até vendidos nas farmácias. Os mais velhos falavam, saudosos, do lipoperdur, uma verdadeira lenda ainda hoje lembrada com frémitos, que lhes tinha permitido terminar o liceu no meio da festa. Mas tinha sido retirado do mercado, fascistas, pelo que rapaziada estudava e curtia à base de comprimidos para emagrecer, uma cena um bocado envergonhada, sem grande onda, e que cobrava o acelerar com ressacas chatas que não havia modo de enganar, era só aguentar o acordado até passarem.

Mas o que reinava era o haxe, era a base moral daquilo tudo. Barato era, mas raro havia dinheiro para comprar as barras de gramas, pelo que ele nos chegava aos pintores, o vulgo de então para cem escudos cujas notas já nem existem. Era coisa de consumo constante, logo de manhãzinha um assobio lá em baixo na rua, às vezes ainda na cama era o aviso para sair a correr, o apelo à vaquinha que aquilo era coisa para fazer de preferência em grupo, se bem que a prática da marroquina, a bem democrática passa única inchada até rebentar, nunca fosse cumprida, para desespero de quem ficava para o fim, ali a remoer-se com as cinzas alheias. É certo que o brunhol era quase sempre muito misturado, em especial com aquelas cenas do shampoo, mas ia dando para não nos ficarmos atravessados. Pela diferença ficou célebre uma carga que deu à Costa, largada por qualquer traficante em apuros e prontamente recuperada ao circuito, tão bom era que anos depois ainda se dizia que o produto em causa "é da costa", como selo da qualidade.

Já bem rara era a erva, coisa de retornado, mítica mesmo, uns tipos mais estranhos esses gajos de África, quase todos ali pela Portela, vá lá que faziam imensas festas, curtiam um bocado diferente do que nós, que nos chegávamos a eles e a elas, sempre na cola. Mas quando ela aparecia era altura de festa, levada aos sacos de plástico até de supermercado para os grandes momentos, esses quase sempre lá pelo velho Dramático em cascais. Ou mesmo quando o Woodstock fez dez anos, a malta à meia-noite no cinema e gajos que até as mantas traziam, e vá lá que ninguém se despia na sala.

Com isto tudo também na nossa geração o pó se foi espalhando. Mas já havia várias versões, diferentes andamentos. Quem começava nas chinesas, a fumá-lo, levava logo na cabeça, que aquilo agarrava, que da chinesa ao xuto era um sopro, e eles a dizerem que não, que se aguentavam, mas todos sabíamos que depois era difícil sair. Certo que o Lou Reed já não xutava, que o Richards e o gémeo mudavam de sangue de seis em seis meses, dizia a Rock & Folk, mas aqueles heróis todos, especialmente os da guitarra fálica tinham-se passado. E até os mais velhos, Bird e Coltrane. Era só arrogância, "Ya, eu controlo", mas se tanto o Hendrix como o vizinho do lado tinham marchado… e se havia gajos em muito mau estado ali à mão de semear! Neles era muito um puxar do cabelo para trás, um que se foda que o rock n’roll veio para ficar, rust never sleeps … Mas é certo que ninguém chegou lá distraído, sem o pessoal a encher-lhe a cabeça. Mesmo enquanto se enrolava um charro, que o tempo dos cachimbos da prata daqueles SG todos tinha passado à história, houve conferências sobre a matéria, posto que aquilo não era saudável. Até porque a imortalidade tinha sido questionada de modo radical, o próprio Marley se tinha ido pelo pulmão, de tanto cantar pela Kaya.

Falando de mim, do que me lembro não é só do ter a minha vida para viver, futuro saudável e feliz, e trá-lá-lá. Mas também da onda má do pó cortado, cheio de venenos misturados que nem sempre eram só Royal de Morango, do medo dos badagaios que davam aos junkies, de tantas histórias más de ods ouvidas contar, até da rapaziada conhecida. E lembro-me muito bem de não ser maluco para arriscar uma cena dessas, e comigo estava muito boa gente. Depois um dia lá fui para doutor, quis-me intelectual, levei um ano que nem a Bola comprava, aquela que ainda era a do tempo bom, o do Pai Pinhão, não era como é agora, e foi um tempo em que era só ciência, um mimo, nem hoje sei o que me deu. E com isto deixei de fumar aquelas merdas todas, que me punham lúcido, a perceber os estrilhos todos que a vida é. Como era coisa honesta, decente e culta, bebia quando tinha que ser, e tinha que ser muitas vezes, que a angústia continuava. Acho que continuou até me encher de amor pela Inês, e isso ainda levou uns anos.

Mas o festival continuou, aliás está aí. Agora, se volto ao bairro ainda encontro personagens dos velhos tempos, uma verdadeira arqueologia. Alguns regressaram, cerâmicas frágeis a colarem-se os cacos. Outros nem tanto. Partilham-se as mesas, algumas bebidas e, se afloradas as memórias, o saber de que sabiam de início. É certo que a dor só se sabe depois de sentida, mas sabiam que ia doer. Talvez não tanto. Mas quem foi, foi…

Envelheço, mas quando chego a um sítio estranho continuo a perceber a onda reinante. E em Lisboa, que hoje me é estranha, entram-me pelos olhos dentro as linhas de coca nos narizes alheios. Mas isso são mais os tipos da minha idade, o kitch do cartão de crédito, a cagança enrugada de quem não quer ser velho, nem que seja à força. Mas nem sei bem que drogas os putos consomem, essas sintéticas, nem os nomes lhes conheço. E se ainda há aquilo a que nós chamávamos, tontos, de contra-cultura. E se houver, seja lá o que isso for, se funciona à base de produto como nos tempos dos Freak Brothers.

domingo, março 27, 2005

O monumento A Montanha Mágica completou dois anos. Vénia.
Paulo Querido, o grande bloguista do "português total" (salve!), esse bem para além do chá-canasta, e que liderou o seu povo até à Terra Prometida, ultrapassa neste Domingo de Páscoa os dois anos d' (O Vento Lá Fora). Que o vento continue a rugir, é o que se espera nesta horta.
O meu colega Patrício Langa colocou um excelente texto no Ideias Para Debate: Os Alienados do Mia, uma reflexão obrigatória para quem se interesse sobre a sempre referida "moçambicanidade". Assim, no súbito do in-blog, um passo à frente na discussão sobre processos de produção identitária.

Que dizer?

Na última semana coloquei aqui 14 textos, de diferente dimensão, subordinados ao tema "Para acabar de vez com a lusofonia". E agora, sobre o que falar?

sexta-feira, março 25, 2005

Economia e Cinema: perguntas de ignorante

Muito pouco percebo de cinema. E ainda menos de Economia. Deles apenas conheço três dogmas: que John Ford "faz(ia) westerns"; que Katherine Hepburn foi a mulher mais bela da História. E que há uma Lei de Oferta e da Procura.

Com esta base sempre me pergunto. Se um distribuidor/exibidor português deseja comprar (procura) um filme e para isso tem que o acompanhar de uma série que não necessita isso não é uma ofensa à Oferta e Procura? Cartel?

Haverá liberais (económicos) em Portugal?

O Poder do Cinema

Lá na minha terra, e por causa de um filme (espanhol?) anda tudo a discutir o livre-arbitrio. É o poder do cinema.

Aguardem pela próxima estreia. Num "cinema perto de si". Há-de mudar a lenga-lenga.

Aos veteranos do blogger

Será que me podem explicar o que significam estas inúmeras visitas vindas de blogs cosmopolitas, obviamente sem ligações ao humilde e paroquial machamba, como p.ex. o Misty Dawn's Heart, o Franchise Opportunity, ou Until I Fall Away, para citar os últimos três?

Será uma esquizofrenia sitemetérica? Ou uma conspiração rankoelevatória?

quinta-feira, março 24, 2005

Sintetizando o que à mesa doméstica, entre sorrisos cáusticos, me disseram [quem?] sobre o bloguismo, este é um mundo de auto e exo-complacência. Sorri, nos meus ares de cavaleiro cínico. E amuei, calva descoberta.
Engraçado, o Ma-Schamba velho ainda tem mais visitantes diários que o Machamba novo.

Conservadorismo alheio? Decadência própria?

Ateu confesso,

dou graças a Deus Nosso Senhor por não ter colunas no meu computador - a minha mulher levou-as e naufragaram num qualquer gabinete.

Pois em tendo-as ser-me-ia impossível esta mania bloguística, o clic-clic, leituras mil transformadas numa cacofonia (literal) horrorosa, cada um, ufano, a impingir a sua música.

Sim, envelheço e isso nota-se. Quando era mais novo curtia música, tudo ela acompanhava. Agora, semi-geronte, gosto de música. Ouço-a. Quase sempre em exclusivo.

[Se a minha senhora lesse o machamba comprava já umas colunas. A ver se me curava desta patologia. Acho, honestamente, que conseguiria.]
Genial, não haja dúvida.

quarta-feira, março 23, 2005

Ainda

O que é a lusofonia? É falar português? Ou é um quadro de apreensão da realidade (suas características, suas possibilidades)? E, se neste último caso, também de imputação (de características, de possibilidades). E, se assim sendo, estabelecendo-se como um guia de acção (mais ou menos explícito)?

Aquilo que aqui tenho vindo a dizer parece-me óbvio, é que a leitura "lusófona" não é meramente descritiva das características linguísticas. E se isso não é apreendido de imediato é devido à capacidade naturalizadora do argumento linguístico (o "véu da língua" que referi abaixo). Mas este é um óbvio relativo. É o meu óbvio.

No Blue Everest encontro outro registo, no texto lusofonia pragmática. Permito-me um comentário, usando-o para tentar melhor esclarecimento do que tenho vindo a discorrer. Interpreto-o, como texto público que é, mas sem lhe querer imputar ideias ou argumentos.

Lá se encontra outra lusofonia, exclusivamente linguística: A Lusofonia não precisa de ser inventada, pois há milhões de pessoas por todo o mundo que falam português. Não é pois discutível, é uma realidade empírica (e não serei eu a negá-la, como é óbvio).

E, para a enquadrar (não para a legitimar, pois a empiria não tem deficit de legitimidade), citam-se, sem qualquer mediação, os estatutos da CPLP e seus objectivos. Uma relação imediata entre capacidades linguísticas "lusófonas" e um organismo político inter-estatal multilateral . Enfim, acho que há um salto abrupto, empobrecedor, mas nem me vou colocar a discutir ciência política ou relações internacionais (ainda que pudesse lembrar que um organismo formalmente similar como o é a Commonwealth não desenvolveu discursos similares).

E não vou porque há outra leitura desta homologia radical CPLP-Lusofonia: é que sendo positivos os objectivos de cooperação para o desenvolvimento expressos nos estatutos (e na prática) da CPLP, tal homologia pode deixar (atenção, "pode deixar") entender que uma oposição ao discurso "lusófono" é, não só absurdo porque anti-empiria, mas também uma oposição ao organismo multilateral inter-estatal e aos seus objectivos políticos positivos de cooperação para o desenvolvimento.

Ora é exactamente o contrário, é porque considero errónea a redução linguística do conceito "lusofonia", é porque considero, portanto, errada a homologia lusofonia-CPLP [esta pode, e deve, desenvolver-se com outro quadro intelectual de apreensão da realidade, sem que isso signifique alterar a sua matriz linguística], que considero fundamental apartar dos esforços positivos (estatutários e pragmáticos) da CPLP à vontade "lusófona". Por outras palavras, à CPLP (à qual, e sem quaisquer niilismos, apenas se pode desejar uma maior eficiência), e em particular ao meu Portugal, é contraproducente o enfoque lusófono.

Um outro ponto. Afirma-se ainda no Blue Everest: "Revoltar-se filosoficamente contra o colonialismo do passado já não serve de nada". Parece-me aqui implícito que uma crítica à lusofonia surge como uma, serôdia, crítica ao colonialismo. Se é essa a interpretação que se pode fazer? (Diga-se que se é essa a interpretação isso é-me desesperante. Que mais poderei dizer para reafirmar que falo do presente e não do passado?).

Por um lado concordo no carácter vetusto do discurso anti-colonial. Sobre isso permito-me mesmo uma auto-referência a um texto [a ligação permanente não funciona correctamente: trata-se de um texto colocado em Janeiro de 2004, intitulado "Mil Desculpas] onde procuro, em registo jocoso, resmungar contra essa perenidade.

Mas por um outro lado esse afirmar da prescrição do discurso anti-colonial é uma extrema simplificação da realidade. Postula-se que (já) não interessa esse discurso! Mas é um postulado originário do contexto "ex-colonizador". Será um postulado eficaz no contexto "ex-colonizado"? Ou afirmamos que é argumento absoluto, desprovido de contexto? Mais, nele se nega assim a permanência da memória histórica da relação colonial, nega-se ser ela ainda a matriz (muito complexa) de relacionamento. Nega-se (incompreende-se) ser essa memória também factor identitário de algumas elites políticas (aqui dependerá muito dos contextos nacionais), e até de comunidades mais vastas. Desconhece-se (incompreende-se) o peso desses argumentos políticos na actualidade. Sublinho, não estou a defender a qualidade deste discurso/mecanismo identitário, estou a reconhecê-lo. [E, se empírico...]

Este "já não vale a pena" surge até expresso numa expressão em voga, o "encontro colonial". Para quem acha as palavras "lisas" (flat, perdoe-se-me o anglicismo), para quem acha "lusofonia" o falar português, também não achará estranho afirmar o "encontro colonial". Para quem ache as palavras rugosas, com múltiplos sentidos, compreenderá que é problemático assim apagar o conteúdo da história, em particular quando feita de violentos conflitos produtores de identidades. Das identidades actuais.

Este "já não vale a pena" de certa forma ilegitima a memória colonial. Ou melhor, afirma-a desnecessária. Considera que quem com ela trabalha, reflecte, o faz em deficit. Nem o nego nem o afirmo, acho que aqui estamos apenas no domínio do "dever ser" (e não do pragmatismo). Mas, e sabendo que o exemplo não está bem calibrado, lembro que em 1998 a representação espanhola na Expo de Lisboa distribuíu documentação onde se incluía uma gravura com o desembarque de Filipe I em Lisboa. E lembro que o sururu gerado bradou até em Maputo. Ridículo? Ou o peso identitário das relações complexas e conflituosas? E já nem digo nada da história da portugalidade, ou das relações com o Brasil.

Em suma, seria melhor para a CPLP, seria melhor para Portugal, que os conceitos que os norteiam fossem (auto)analisados. E não naturalizados. Não esquecendo que enquanto guias de acção eles terão alguma responsabilidade (não toda, alguma) na pobre empiria das tais relações inter-estatais, de cooperação para o desenvolvimento. Onde muito ultrapassa as dificuldades institucionais e financeiras e desemboca na incompreensão. A qual é potenciada pelas expectativa (falsa) da comunhão a priori, do (re)conhecimento imediato. E multiplicada pelo mito da língua comum como "vantagem comparativa" [sobre isso hei-de escrever].

Finalmente, o poder não é sagrado. Quando leio Seria ofensivo imaginar que quem redigiu estes estatutos ignorava o mundo em que vivemos e não sabia com o que contava relembro duas coisas: que, e repito, criticar o conceito "lusofonia" não é criticar os estatutos da CPLP; e lembro o texto que abaixo referi, onde Michel Cahen regista a espantosa retórica que acompanhou o surgimento da CPLP (mais gongórica a brasileira, reconheça-se), a qual poderá levantar dúvidas sobre o discernimento à altura. E não acho que seja ofensivo questionar a cosmologia de quem exerce o poder. Acho, aliás, dever. E, com toda a franqueza, prazer.

Afinal, desindustrialização?

Aqui referi a problemática da abertura dos mercados. Necessária e fundamental. Mas por alguns vistos como resolução - como se a um omnipotente Estado "Paizinho dos Povos" se sucedesse uma outra omnipotência, a do Mercado Mágico.

Que formas históricas assumiu o liberalismo económico? E em que condições globais? São questões pouco dadas à proclamação de grandes princípios, e à negação (analfabeta, pois então) dos conteúdos sociopolíticos da economia. Muito em voga no meu país, que o giro iletrado dá jeito à gargalhada. E à audiência.

A este propósito transcrevo uma notícia do jornal "País". Apenas uma notícia de jornal, não uma verdade indiscutida. Mas a questionar os factores do desenvolvimento africano.

***

Os produtores de algodão da África Austral estão preocupados com os baixos preços do algodão no mercado internacional, para além da generalizada falência que caracteriza o sector têxtil e de confecções de todo o continente. (...) as dificuldades que caracterizam o sector do algodão na África Austral são os mesmos de todo o continente. O grande constrangimento relaciona-se com os baixos preços praticados no mercado. (...) a abertura que aconteceu a partir de 1 de Janeiro do ano em curso está a impor uma outra dinâmica no mercado mundial (...) os países africanos não estão em condições de concorrer com os grandes produtores tais como a Índia, a China e a Indonésia. (...) Existe a percepção que o Lesotho conseguiu estabelecer a sua indústria têxtil e de confecções, mas trata-se de uma realidade aparente (...) a tendência também é para cair. O Quénia, por exemplo, só tem encomendas para mais um mês...

[texto de Arão Valoi, publicado no Pais, 19 Março 2005]