quinta-feira, março 31, 2005

musiquices

Estou mais sossegado: confesso que cheguei a temer que fosse, apenas, o meu muito proclamado mau-feitio.
[Emenda: Um leitor do Machamba acaba de me enviar um texto da autoria de Igor José de Renó Machado. Uma recensão crítica ao livro de Alfredo Margarido (2000), "A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses".

Como aqui tenho vindo a escrever sobre o asssunto "lusofonia" julgo de interesse colocar o recém-chegado texto. Com alguns pontos não concordo, com algum enfoque discordo radicalmente. Mas isso é natural, a cada um sua sentença. Mais tarde direi das minhas discordâncias. Às visitas já cansadas deste tema as minhas desculpas, é só clicarem "fuga". Aos que têm apreço por este "abaixismo" à mediocridade aparatchikista, obrigado.

[Actualização: Lutz Bruckelmann comentou algo que justifica leitura]

Eis:


MARGARIDO, Alfredo. 2000. A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses. Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas. 89 pp.
Igor José de Renó Machado
Doutorando, Unicamp

O livro A Lusofonia e os Lusófonos é um libelo contra uma forma hegemônica do pensamento social português, representada por intelectuais, colunistas de importantes jornais e intelectuais orgânicos do partido do governo (o PS) e do leque político que se estende até a extrema-direita. Sob uma ironia refinada e uma crueza ácida, Margarido põe à mostra as entranhas nada gloriosas dessa forma de pensamento que domina a Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa (CPLP) e a diplomacia portuguesa e que, embora ignorada no Brasil (como, ademais, o próprio Portugal), é insidiosa e efetiva na relação de Portugal com os países africanos que se livraram do jugo português após sangrentas guerras coloniais. É insidiosa também na organização interna da imigração para Portugal que, de acordo com as regras da União Européia, fecha as portas aos imigrantes das ex-colônias. Nesse sentido, a lusofonia afeta diretamente a vida dos cerca de 50 mil brasileiros imigrantes em Portugal, se contarmos apenas os números oficiais.

Margarido considera que a partir de 1960 se deu o rompimento de Portugal com o Atlântico, momento marcado pelas guerras coloniais, imigração e pelo nacionalismo racista. A lusofonia surge como ferramenta ideológica para recuperar esse espaço atlântico, apagando a história colonial e as relações polêmicas com os povos de língua portuguesa, mediante a tentativa de controle da língua "mãe". A importância da língua aumenta apenas quando desaparece o controle direto das populações e, após 1974, quando se lhe confere o papel que foi dos territórios colonizados: o de recuperar a grandeza portuguesa. Ao mesmo tempo, controlam-se cada vez mais as populações "residuais" dos tempos coloniais - os imigrantes - em Portugal e no restante da Europa. Exibe-se a contradição entre a pretensão de um "espaço lusófono" e o exagero da submissão portuguesa às leis de Schengen, que cria uma Europa racista, eugênica e desumanizada. E essa violência racista é dirigida, em cada país, a grupos específicos (em Portugal, são os cabo-verdianos o alvo preferencial do racismo, diz o autor, mas podemos acrescentar: os moçambicanos, guineenses e brasileiros).

O discurso da lusofonia encampa um projeto missionário de "civilização" após as guerras coloniais (nesse sentido, pós-colonial), agora focado na língua. O primeiro sintoma dessa virada acontece com a mudança de vocabulário após as independências africanas, similar à francofonia, criando um suposto "espaço lusófono" e uma história comum cor-de-rosa. A contradição aparente é que o atual europeísmo da União Européia condena os particularismos nacionais (principalmente o dos países mais pobres da União), o que impede a formação de espaços lusófonos, francófonos ou hispanófonos reais, como fica claro pelas políticas de controle de imigração cada vez mais duras e desumanas na Europa. Só há e só pode haver espaço lusófono em um discurso mítico.

Margarido critica a visão lusófona do passado, como se o "Outro" só existisse após o encontro com algum navegador português, esquecendo-se a outra face do encontro: a invasão. Além disso, faz digressões sobre o trauma ocorrido com a independência do Brasil em 1822, que levou o discurso colonial português a reafirmar os "direitos" às demais colônias e populações. Esse trauma surge e ressurge de várias maneiras: ou escamoteando a independência brasileira como sendo um fator português, dado que foi proclamada por D. Pedro I, ou vendo no Brasil um Estado-filho ou Estado-irmão mais novo, implicando sempre laços que devem manter tais países unidos (se o Brasil continuar sempre infantilizado).

A partir da década de 20, os nacionalistas brasileiros passam a se preocupar com o povo, e Gilberto Freyre vai derivar o Brasil do apetite sexual português. Mas o luso-tropicalismo só existe em Portugal no pós-45, quando o que já era ruim é mutilado para servir à hegemonia colonial portuguesa, fechando os olhos a toda sorte de violências (que culminaram nas malfadadas guerras coloniais), barrando inclusive a possibilidade de modernização do país. Aqui não se pode deixar de dizer que Margarido produz um "nacionalismo alternativo", que luta contra a lusofonia para que Portugal chegue à modernidade. Como um exilado permanente, lecionando na França, e como um dos principais críticos do colonialismo português, Margarido pode ser visto como um intelectual "contra-hegemônico".

Outra contradição da lusofonia é a atual preocupação com a língua, que nunca foi objeto de cuidados quando da época colonial. No Brasil e nos países africanos (até 1961) não se criaram universidades e a política de não-educação era uma forma de manter o estatuto de inferioridade do colonizado. Os africanos sem escrita eram considerados "fora da história" e só "entram na história através das formas de dominação" (:51). A língua passa a ser, depois de ignorada sistematicamente pelo colonialismo tardio português, o elemento de continuidade da dominação colonial, e "a exacerbação da 'lusofonia' assenta nesse estrume teórico" (:57). Recorrendo a Saussure, o autor demonstra como uma comunidade lingüística é baseada na religião, convivência, defesa comum etc., o que é definido como etnismo. A relação desse etnismo com a língua é uma relação de reciprocidade, ou seja, é a relação social que tende a criar a língua, portanto, a língua não pode ser a pátria de ninguém. Essa fórmula pessoana apaga o peso dos "costumes" nas considerações sobre a língua, fazendo com que os povos com outros costumes possam ser lusófonos apenas por falarem português (minha pátria é minha língua... mas quem é que manda nessa pátria?). A idéia de uma pátria lingüística é uma hierarquia que apenas repõe aquela do Império.

É interessante ver o papel da língua brasileira em Portugal, através do avanço da mídia brasileira na Lusitânia. Na verdade, essa presença influenciadora é profundamente incômoda para a intelectualidade portuguesa, que acaba por reduzi-la a um sinal da "criatividade" natural do brasileiro. Esse falar brasileiro "criativizado" pelos portugueses repõe o mesmo preconceito lusófono: a criatividade e a criação artística são o outro lado da selvageria e, portanto, a natural criatividade do brasileiro é mais um sintoma de sua inferioridade intelectual, pois ao criativo é negada a razão, como forma de tentar conter dentro das estruturas de um lusofonismo detestável a presença da fala brasileira.

Aqui se pode questionar Margarido, mesmo reconhecendo a irônica provocação que é elevar a língua brasileira ao status de "língua oficial" da suposta lusofonia. Para tentar desmontar e provocar a intelectualidade portuguesa, profundamente incomodada com a presença do falar brasileiro, Margarido argumenta que é a língua brasileira a mais bonita, maleável e "erótica" e, portanto, a única candidata a uma suposta língua lusófona. É questionável recorrer, para criticar a lusofonia, à imagem estereotipada que ela própria reproduz, ao acentuar o caráter "erótico" do português falado no Brasil. Uma das características da lusofonia é a separação entre civilização e selvageria, na qual Portugal representa o processo civilizatório e a língua equivale a "civilizar". Se assim é, o apelo à "natureza erótica" da fala do brasileiro é mais um recurso, mesmo quando usado ironicamente, à lusofonia, pois o brasileiro erotizado é rebaixado ao pólo "selvagem" dessa divisão básica do discurso lusófono. De fato, não é a fala do brasileiro que é erótica (afinal, o que é isso?), mas é porque ele é visto de modo erotizado que a fala é considerada erótica. Isto por si só dá a entender ao leitor brasileiro a força desse discurso lusófono em Portugal, pois nem mesmo seu crítico mais ácido consegue se desvencilhar dele completamente.

Ora, a lusofonia não passa de um "doce paraíso da dominação lingüística que constitui agora uma arma onde se podem medir as pulsões neo-colonialistas que caracterizam aqueles que não conseguiram ainda renunciar à certeza de que os africanos [e brasileiros, acrescentaria] só podem ser inferiores" (:71). A lusofonia serve como ferramenta de manutenção das distâncias racistas em que se baseou o discurso colonial após seu fim sangrento, apagando o passado e recuperando a antiga hegemonia. O que Margarido não diz explicitamente, mas que se pode derivar de seus argumentos, é como serve a lusofonia de estrutura da ordem hierárquica que escalona os imigrantes, "resíduos" do Império que procuram em Portugal fugir ao desastre que em casa foi a herança portuguesa. É uma suprema (e dolorida) ironia que os imigrantes sirvam como o campo preferencial de reordenação simbólica da ordem imperial.

Embora ao leitor brasileiro o tema da lusofonia debatido por Margarido praticamente não faça o menor sentido (o que é ótimo e dói nos ouvidos portugueses), para os países africanos recém-saídos do - e destruídos pelo - período colonial, a temática lusófona é, no mínimo, repugnante. Mas é preciso alertar ao potencial público objeto da ideologia "lusófona", os falantes de português, a não jogar o jogo da lusofonia, seja por subordinação causada pela miséria (no caso de Moçambique, Angola, São Tomé, Cabo Verde e Guiné), seja por desprezo (no caso do Brasil). Entre outras causas, é justamente por esse grande desprezo da opinião pública brasileira, que o mecanismo da CPLP pode curvar-se ao lusofonismo tacanho do governo português. Para imigrantes brasileiros e africanos das ex-colônias, entretanto, o discurso da lusofonia é uma armadilha terrível, pois o espaço lusófono, como mito que é, nunca se realizará na prática. A busca por direitos "especiais" baseados na lusofonia por parte de associações imigrantes oriundas do desastre colonial português, além de infecunda, apenas reforça essa "ideologia-estrume" (no dizer de Margarido).

quarta-feira, março 30, 2005

mais...lusofonia [agente de desconhecimento]

"Ausente do obsidiante mundo dos padrões, a lusofonia não tem imagem estatística. E sem imagem estatística, não se existe na globalização comercial e financeira. Uma razão para esta inexistência global é julgarmos conhecer os oito países membros da CPLP como as nossas mãos. No imaginário lusófono, eles estão juntos na cultura e nos afectos: um é velho, outro é grande, os outros precisam de ajuda para crescer. Só que a história e geografia assim conotadas escondem o potencial de desenvolvimento porque não apreendem a governação (...)"

[Braga de Macedo, "Governação no Espaço de Língua Portuguesa" in Mediafax, nº 3123, 27.09.04]
Já agora no Klepsýdra um pequeno texto onde mais uma vez se desmonta o actual anti-francesismo português. No blogomundo que eu conheço é no Klepsýdra que mais se tem criticado essa pobreza do raciocínio anti-francês que grassa no meu país (ou blogopaís) e, surpreendentemente (para quem conheça algo da história do pensamento político europeu), mais no centro e direita - um filoactualrepublicanismo que nada mais é do que a mediatização da reflexão [think fast, think light].

Também por isso, obrigado Klepsýdra.
O Rui Curado Silva, avisado, assinala (e nisso aprendo, e recuo, saudoso) o centenário da morte do gigante Jules Verne. Deixa ele ainda ligação para local alusivo.

Obrigado Klepsýdra.

segunda-feira, março 28, 2005

O jornal Zambeze passou a ter edição diária informática.
O Kim (assim mesmo, à Kypling) saúda o neo-Machamba, recordando uma velha provocação [tão velha que já nem sei quem lançou a primeira pedra, o que para o caso também não interessa]: avançar com um blog colectivo sobre os Olivais. Um mundo, o nosso bairro. Ou, mais certeiramente, um Alcácer-Quibir? Gente provocada e provocável não falta, aqui no bloguismo. Que eu conheça estão o Apenas Mais Um, o Oceanus Occidentalis, o Povo de Bahá/Antigamente, tudo dos Olivais-Sul, talvez haja mais, até lá do Norte.

Assim, a ver se agito as mentes memorialistas, aqui deixo um texto antigo que vem dos fundos da arca Ma-schamba. É um bocado da minha juventude (e não só) lá nos bairros, nos tempos do entre o 21 e o recolha a Cabo Ruivo.

E a seguir, alguém se chega à frente?



OLIVAIS

Em memória do Zé Monteiro, Senhor e Iconoclasta

O primeiro tipo que vi a xutar foi o J. Keke, para aí há uns 20 anos, estávamos todos na gruta do Venâncio. O Keke apareceu a pedir para dar lá o caldo e entrámos todos, a pensar que se ia fumar um charro. Ele não gostou, e eu também não que seringas nunca foi comigo, mas ainda precisou de ajuda para o garrote, hesitámos, ficámo-nos e foi a Nuxa que os teve para se chegar à frente. O Keke era da geração mais velha, junkie de sapato italiano, bem penteado, andar balançante e inchado, olho arqueado, tipo bonitão piroso. Depois a vida foi-lhe piorando, baldou-se para o estrangeiro constava que em curas, e um dia morreu em Itália de um tiro na cabeça. É certo que muitos anos depois, eu já trintão no café do Pinto, e ele entra-me, igual a sempre, todo atilado a pedir uma bica. E lá ficou, sorte dele. Outros morreram assim, também ao Persio lho aconteceu lá pelas vindimas estrangeiras, último refúgio de uns quantos, e estou eu a almoçar numa tasca com o coronel e o gajo a entrar a dizer que não está nada morto, e se pode almoçar connosco. Mas não estava lá muito bem, e afinal sempre se morreu passados uns tempos. E o Zombie, verdadeira série B, um tipo altíssimo e magérrimo, todo baço do cinzento que era, assim alcunhado porque quando morreu de Od decidiu-se a acordar na morgue onde, contavam, causou um grande impressão, e até susto, do feio que era.

Nos xutos perdeu-se muita gente, alguns resistiram anos a fio e depois limparam-se, até era engraçado nas imperiais da esplanada e eles, sumol de ananás, limpinhos, a contarem das dores das curas. Outros foram morrendo, de amigos amigos assim só perdi o Zé M. que está aí na epígrafe, um Senhor que me faz saudades, Átila da retórica a erva não nascia sob as suas palavras. Outros perdi de outra maneira, estão vivos mas o seu desatino separou-nos, que se aprende a não ter paciência para os agarrados, alapam-se mesmo, só tantos anos depois percebi que quais matacanhas, que é bicho que nem conhecia à altura.

Quem cresceu nos Olivais sabe bem o que era a mistura de gentes, que era o que tinha a piada, foi o que retirámos do Salazar, que foi quem inventou o bairro, uma sopa de classes queria ele, a ver se melhorava o tempero, o dele claro está. Já aos 9 anos se saía da carrinha do Valsassina para a pedrada com os ciganos e havia quem logo fizesse alianças de classe com o Chica e o Pimenta, que penso perdurarem até hoje, caso seja necessário. Quando chegados a crescidos isso dá-nos um grande treino na vida, apesar das surpresas! E aprendemos que as drogas são como o futebol e a caça, os índios vêm de todas os estratos.

Lá pelos finais do liceu, quando tocou a rebate por causa das médias, havia imensa gente junta, nem se sabia bem como, que aquilo éramos aos magotes, saímos de todos os recantos. E também havia muito produto, as mercearias não faltavam, lá no Gordo, nos Candeeiros, no Brisa, nos Viveiros, no Ferrador. As mais pesadas diziam que era no Cambodja e no Modesto mas aí só ia quem conhecia e os tinha no sítio. E já nem falo do Comboio Parado e do Vietname, ambos lá para a Cidade da Beira, mas a estas últimas nunca me cheguei, que essa era zona nada segura para nós, nunca percebi bem porquê, falta dos contactos certos, penso eu mas só hoje.

Da geração mais velha alguns já andavam aflitos com a heroína, o cavalo como dizia a xunga dos dealers. O ácido é que era coisa de filme, sabia-se que existia mas não era usual, e o que aparecia era só estricnina. Mais tarde fomos ao Burroughs e afins saber como aquilo funcionava. Fomos mesmo uma geração pós-acido e pré-pastilhas, essas que lá para os 90s puseram Lisboa aos pulos de madrugada com músicas que me tornaram avô, que aquilo era só barulho, e ainda para mais usada por gentes que só bebiam água, que desperdício de noites.

No início dos 80s foi a era dos drunfos, o ácido dos pobres. Noites quentes pelos cafés com dezenas de tipos meio aos gritos meio aos grunhidos, um bazar de comprimidos onde o rei era o Espanhol, um celta sem dentes, histriónico. Aí o pessoal graduava-se, o máximo era quem arranjava as panteras cor-de-rosa, o grande somio, coisa de tráfico, mas os mais bimbos ficavam-se nas farmácias das mãezinhas, as cujas iam esquecendo os maridos ausentes ou arredios à pala dos roips ou mandraxs, uma porra porque ainda que nos dessem ganza tornavam-nos amnésicos. E era assim, erravam grupos anestesiados, nada para lembrar no dia seguinte, excepto pelo sóbrio que ia para tomar conta, quando o havia disponível. Acho que isso decaíu quando o Chico dos Drunfos se deixou morrer atropelado em plena Av. de Roma. No meio disto tudo usavam-se speeds, mais legítimos porque até vendidos nas farmácias. Os mais velhos falavam, saudosos, do lipoperdur, uma verdadeira lenda ainda hoje lembrada com frémitos, que lhes tinha permitido terminar o liceu no meio da festa. Mas tinha sido retirado do mercado, fascistas, pelo que rapaziada estudava e curtia à base de comprimidos para emagrecer, uma cena um bocado envergonhada, sem grande onda, e que cobrava o acelerar com ressacas chatas que não havia modo de enganar, era só aguentar o acordado até passarem.

Mas o que reinava era o haxe, era a base moral daquilo tudo. Barato era, mas raro havia dinheiro para comprar as barras de gramas, pelo que ele nos chegava aos pintores, o vulgo de então para cem escudos cujas notas já nem existem. Era coisa de consumo constante, logo de manhãzinha um assobio lá em baixo na rua, às vezes ainda na cama era o aviso para sair a correr, o apelo à vaquinha que aquilo era coisa para fazer de preferência em grupo, se bem que a prática da marroquina, a bem democrática passa única inchada até rebentar, nunca fosse cumprida, para desespero de quem ficava para o fim, ali a remoer-se com as cinzas alheias. É certo que o brunhol era quase sempre muito misturado, em especial com aquelas cenas do shampoo, mas ia dando para não nos ficarmos atravessados. Pela diferença ficou célebre uma carga que deu à Costa, largada por qualquer traficante em apuros e prontamente recuperada ao circuito, tão bom era que anos depois ainda se dizia que o produto em causa "é da costa", como selo da qualidade.

Já bem rara era a erva, coisa de retornado, mítica mesmo, uns tipos mais estranhos esses gajos de África, quase todos ali pela Portela, vá lá que faziam imensas festas, curtiam um bocado diferente do que nós, que nos chegávamos a eles e a elas, sempre na cola. Mas quando ela aparecia era altura de festa, levada aos sacos de plástico até de supermercado para os grandes momentos, esses quase sempre lá pelo velho Dramático em cascais. Ou mesmo quando o Woodstock fez dez anos, a malta à meia-noite no cinema e gajos que até as mantas traziam, e vá lá que ninguém se despia na sala.

Com isto tudo também na nossa geração o pó se foi espalhando. Mas já havia várias versões, diferentes andamentos. Quem começava nas chinesas, a fumá-lo, levava logo na cabeça, que aquilo agarrava, que da chinesa ao xuto era um sopro, e eles a dizerem que não, que se aguentavam, mas todos sabíamos que depois era difícil sair. Certo que o Lou Reed já não xutava, que o Richards e o gémeo mudavam de sangue de seis em seis meses, dizia a Rock & Folk, mas aqueles heróis todos, especialmente os da guitarra fálica tinham-se passado. E até os mais velhos, Bird e Coltrane. Era só arrogância, "Ya, eu controlo", mas se tanto o Hendrix como o vizinho do lado tinham marchado… e se havia gajos em muito mau estado ali à mão de semear! Neles era muito um puxar do cabelo para trás, um que se foda que o rock n’roll veio para ficar, rust never sleeps … Mas é certo que ninguém chegou lá distraído, sem o pessoal a encher-lhe a cabeça. Mesmo enquanto se enrolava um charro, que o tempo dos cachimbos da prata daqueles SG todos tinha passado à história, houve conferências sobre a matéria, posto que aquilo não era saudável. Até porque a imortalidade tinha sido questionada de modo radical, o próprio Marley se tinha ido pelo pulmão, de tanto cantar pela Kaya.

Falando de mim, do que me lembro não é só do ter a minha vida para viver, futuro saudável e feliz, e trá-lá-lá. Mas também da onda má do pó cortado, cheio de venenos misturados que nem sempre eram só Royal de Morango, do medo dos badagaios que davam aos junkies, de tantas histórias más de ods ouvidas contar, até da rapaziada conhecida. E lembro-me muito bem de não ser maluco para arriscar uma cena dessas, e comigo estava muito boa gente. Depois um dia lá fui para doutor, quis-me intelectual, levei um ano que nem a Bola comprava, aquela que ainda era a do tempo bom, o do Pai Pinhão, não era como é agora, e foi um tempo em que era só ciência, um mimo, nem hoje sei o que me deu. E com isto deixei de fumar aquelas merdas todas, que me punham lúcido, a perceber os estrilhos todos que a vida é. Como era coisa honesta, decente e culta, bebia quando tinha que ser, e tinha que ser muitas vezes, que a angústia continuava. Acho que continuou até me encher de amor pela Inês, e isso ainda levou uns anos.

Mas o festival continuou, aliás está aí. Agora, se volto ao bairro ainda encontro personagens dos velhos tempos, uma verdadeira arqueologia. Alguns regressaram, cerâmicas frágeis a colarem-se os cacos. Outros nem tanto. Partilham-se as mesas, algumas bebidas e, se afloradas as memórias, o saber de que sabiam de início. É certo que a dor só se sabe depois de sentida, mas sabiam que ia doer. Talvez não tanto. Mas quem foi, foi…

Envelheço, mas quando chego a um sítio estranho continuo a perceber a onda reinante. E em Lisboa, que hoje me é estranha, entram-me pelos olhos dentro as linhas de coca nos narizes alheios. Mas isso são mais os tipos da minha idade, o kitch do cartão de crédito, a cagança enrugada de quem não quer ser velho, nem que seja à força. Mas nem sei bem que drogas os putos consomem, essas sintéticas, nem os nomes lhes conheço. E se ainda há aquilo a que nós chamávamos, tontos, de contra-cultura. E se houver, seja lá o que isso for, se funciona à base de produto como nos tempos dos Freak Brothers.

domingo, março 27, 2005

O monumento A Montanha Mágica completou dois anos. Vénia.
Paulo Querido, o grande bloguista do "português total" (salve!), esse bem para além do chá-canasta, e que liderou o seu povo até à Terra Prometida, ultrapassa neste Domingo de Páscoa os dois anos d' (O Vento Lá Fora). Que o vento continue a rugir, é o que se espera nesta horta.
O meu colega Patrício Langa colocou um excelente texto no Ideias Para Debate: Os Alienados do Mia, uma reflexão obrigatória para quem se interesse sobre a sempre referida "moçambicanidade". Assim, no súbito do in-blog, um passo à frente na discussão sobre processos de produção identitária.

Que dizer?

Na última semana coloquei aqui 14 textos, de diferente dimensão, subordinados ao tema "Para acabar de vez com a lusofonia". E agora, sobre o que falar?

sexta-feira, março 25, 2005

Economia e Cinema: perguntas de ignorante

Muito pouco percebo de cinema. E ainda menos de Economia. Deles apenas conheço três dogmas: que John Ford "faz(ia) westerns"; que Katherine Hepburn foi a mulher mais bela da História. E que há uma Lei de Oferta e da Procura.

Com esta base sempre me pergunto. Se um distribuidor/exibidor português deseja comprar (procura) um filme e para isso tem que o acompanhar de uma série que não necessita isso não é uma ofensa à Oferta e Procura? Cartel?

Haverá liberais (económicos) em Portugal?

O Poder do Cinema

Lá na minha terra, e por causa de um filme (espanhol?) anda tudo a discutir o livre-arbitrio. É o poder do cinema.

Aguardem pela próxima estreia. Num "cinema perto de si". Há-de mudar a lenga-lenga.

Aos veteranos do blogger

Será que me podem explicar o que significam estas inúmeras visitas vindas de blogs cosmopolitas, obviamente sem ligações ao humilde e paroquial machamba, como p.ex. o Misty Dawn's Heart, o Franchise Opportunity, ou Until I Fall Away, para citar os últimos três?

Será uma esquizofrenia sitemetérica? Ou uma conspiração rankoelevatória?

quinta-feira, março 24, 2005

Sintetizando o que à mesa doméstica, entre sorrisos cáusticos, me disseram [quem?] sobre o bloguismo, este é um mundo de auto e exo-complacência. Sorri, nos meus ares de cavaleiro cínico. E amuei, calva descoberta.
Engraçado, o Ma-Schamba velho ainda tem mais visitantes diários que o Machamba novo.

Conservadorismo alheio? Decadência própria?

Ateu confesso,

dou graças a Deus Nosso Senhor por não ter colunas no meu computador - a minha mulher levou-as e naufragaram num qualquer gabinete.

Pois em tendo-as ser-me-ia impossível esta mania bloguística, o clic-clic, leituras mil transformadas numa cacofonia (literal) horrorosa, cada um, ufano, a impingir a sua música.

Sim, envelheço e isso nota-se. Quando era mais novo curtia música, tudo ela acompanhava. Agora, semi-geronte, gosto de música. Ouço-a. Quase sempre em exclusivo.

[Se a minha senhora lesse o machamba comprava já umas colunas. A ver se me curava desta patologia. Acho, honestamente, que conseguiria.]
Genial, não haja dúvida.

quarta-feira, março 23, 2005

Ainda

O que é a lusofonia? É falar português? Ou é um quadro de apreensão da realidade (suas características, suas possibilidades)? E, se neste último caso, também de imputação (de características, de possibilidades). E, se assim sendo, estabelecendo-se como um guia de acção (mais ou menos explícito)?

Aquilo que aqui tenho vindo a dizer parece-me óbvio, é que a leitura "lusófona" não é meramente descritiva das características linguísticas. E se isso não é apreendido de imediato é devido à capacidade naturalizadora do argumento linguístico (o "véu da língua" que referi abaixo). Mas este é um óbvio relativo. É o meu óbvio.

No Blue Everest encontro outro registo, no texto lusofonia pragmática. Permito-me um comentário, usando-o para tentar melhor esclarecimento do que tenho vindo a discorrer. Interpreto-o, como texto público que é, mas sem lhe querer imputar ideias ou argumentos.

Lá se encontra outra lusofonia, exclusivamente linguística: A Lusofonia não precisa de ser inventada, pois há milhões de pessoas por todo o mundo que falam português. Não é pois discutível, é uma realidade empírica (e não serei eu a negá-la, como é óbvio).

E, para a enquadrar (não para a legitimar, pois a empiria não tem deficit de legitimidade), citam-se, sem qualquer mediação, os estatutos da CPLP e seus objectivos. Uma relação imediata entre capacidades linguísticas "lusófonas" e um organismo político inter-estatal multilateral . Enfim, acho que há um salto abrupto, empobrecedor, mas nem me vou colocar a discutir ciência política ou relações internacionais (ainda que pudesse lembrar que um organismo formalmente similar como o é a Commonwealth não desenvolveu discursos similares).

E não vou porque há outra leitura desta homologia radical CPLP-Lusofonia: é que sendo positivos os objectivos de cooperação para o desenvolvimento expressos nos estatutos (e na prática) da CPLP, tal homologia pode deixar (atenção, "pode deixar") entender que uma oposição ao discurso "lusófono" é, não só absurdo porque anti-empiria, mas também uma oposição ao organismo multilateral inter-estatal e aos seus objectivos políticos positivos de cooperação para o desenvolvimento.

Ora é exactamente o contrário, é porque considero errónea a redução linguística do conceito "lusofonia", é porque considero, portanto, errada a homologia lusofonia-CPLP [esta pode, e deve, desenvolver-se com outro quadro intelectual de apreensão da realidade, sem que isso signifique alterar a sua matriz linguística], que considero fundamental apartar dos esforços positivos (estatutários e pragmáticos) da CPLP à vontade "lusófona". Por outras palavras, à CPLP (à qual, e sem quaisquer niilismos, apenas se pode desejar uma maior eficiência), e em particular ao meu Portugal, é contraproducente o enfoque lusófono.

Um outro ponto. Afirma-se ainda no Blue Everest: "Revoltar-se filosoficamente contra o colonialismo do passado já não serve de nada". Parece-me aqui implícito que uma crítica à lusofonia surge como uma, serôdia, crítica ao colonialismo. Se é essa a interpretação que se pode fazer? (Diga-se que se é essa a interpretação isso é-me desesperante. Que mais poderei dizer para reafirmar que falo do presente e não do passado?).

Por um lado concordo no carácter vetusto do discurso anti-colonial. Sobre isso permito-me mesmo uma auto-referência a um texto [a ligação permanente não funciona correctamente: trata-se de um texto colocado em Janeiro de 2004, intitulado "Mil Desculpas] onde procuro, em registo jocoso, resmungar contra essa perenidade.

Mas por um outro lado esse afirmar da prescrição do discurso anti-colonial é uma extrema simplificação da realidade. Postula-se que (já) não interessa esse discurso! Mas é um postulado originário do contexto "ex-colonizador". Será um postulado eficaz no contexto "ex-colonizado"? Ou afirmamos que é argumento absoluto, desprovido de contexto? Mais, nele se nega assim a permanência da memória histórica da relação colonial, nega-se ser ela ainda a matriz (muito complexa) de relacionamento. Nega-se (incompreende-se) ser essa memória também factor identitário de algumas elites políticas (aqui dependerá muito dos contextos nacionais), e até de comunidades mais vastas. Desconhece-se (incompreende-se) o peso desses argumentos políticos na actualidade. Sublinho, não estou a defender a qualidade deste discurso/mecanismo identitário, estou a reconhecê-lo. [E, se empírico...]

Este "já não vale a pena" surge até expresso numa expressão em voga, o "encontro colonial". Para quem acha as palavras "lisas" (flat, perdoe-se-me o anglicismo), para quem acha "lusofonia" o falar português, também não achará estranho afirmar o "encontro colonial". Para quem ache as palavras rugosas, com múltiplos sentidos, compreenderá que é problemático assim apagar o conteúdo da história, em particular quando feita de violentos conflitos produtores de identidades. Das identidades actuais.

Este "já não vale a pena" de certa forma ilegitima a memória colonial. Ou melhor, afirma-a desnecessária. Considera que quem com ela trabalha, reflecte, o faz em deficit. Nem o nego nem o afirmo, acho que aqui estamos apenas no domínio do "dever ser" (e não do pragmatismo). Mas, e sabendo que o exemplo não está bem calibrado, lembro que em 1998 a representação espanhola na Expo de Lisboa distribuíu documentação onde se incluía uma gravura com o desembarque de Filipe I em Lisboa. E lembro que o sururu gerado bradou até em Maputo. Ridículo? Ou o peso identitário das relações complexas e conflituosas? E já nem digo nada da história da portugalidade, ou das relações com o Brasil.

Em suma, seria melhor para a CPLP, seria melhor para Portugal, que os conceitos que os norteiam fossem (auto)analisados. E não naturalizados. Não esquecendo que enquanto guias de acção eles terão alguma responsabilidade (não toda, alguma) na pobre empiria das tais relações inter-estatais, de cooperação para o desenvolvimento. Onde muito ultrapassa as dificuldades institucionais e financeiras e desemboca na incompreensão. A qual é potenciada pelas expectativa (falsa) da comunhão a priori, do (re)conhecimento imediato. E multiplicada pelo mito da língua comum como "vantagem comparativa" [sobre isso hei-de escrever].

Finalmente, o poder não é sagrado. Quando leio Seria ofensivo imaginar que quem redigiu estes estatutos ignorava o mundo em que vivemos e não sabia com o que contava relembro duas coisas: que, e repito, criticar o conceito "lusofonia" não é criticar os estatutos da CPLP; e lembro o texto que abaixo referi, onde Michel Cahen regista a espantosa retórica que acompanhou o surgimento da CPLP (mais gongórica a brasileira, reconheça-se), a qual poderá levantar dúvidas sobre o discernimento à altura. E não acho que seja ofensivo questionar a cosmologia de quem exerce o poder. Acho, aliás, dever. E, com toda a franqueza, prazer.

Afinal, desindustrialização?

Aqui referi a problemática da abertura dos mercados. Necessária e fundamental. Mas por alguns vistos como resolução - como se a um omnipotente Estado "Paizinho dos Povos" se sucedesse uma outra omnipotência, a do Mercado Mágico.

Que formas históricas assumiu o liberalismo económico? E em que condições globais? São questões pouco dadas à proclamação de grandes princípios, e à negação (analfabeta, pois então) dos conteúdos sociopolíticos da economia. Muito em voga no meu país, que o giro iletrado dá jeito à gargalhada. E à audiência.

A este propósito transcrevo uma notícia do jornal "País". Apenas uma notícia de jornal, não uma verdade indiscutida. Mas a questionar os factores do desenvolvimento africano.

***

Os produtores de algodão da África Austral estão preocupados com os baixos preços do algodão no mercado internacional, para além da generalizada falência que caracteriza o sector têxtil e de confecções de todo o continente. (...) as dificuldades que caracterizam o sector do algodão na África Austral são os mesmos de todo o continente. O grande constrangimento relaciona-se com os baixos preços praticados no mercado. (...) a abertura que aconteceu a partir de 1 de Janeiro do ano em curso está a impor uma outra dinâmica no mercado mundial (...) os países africanos não estão em condições de concorrer com os grandes produtores tais como a Índia, a China e a Indonésia. (...) Existe a percepção que o Lesotho conseguiu estabelecer a sua indústria têxtil e de confecções, mas trata-se de uma realidade aparente (...) a tendência também é para cair. O Quénia, por exemplo, só tem encomendas para mais um mês...

[texto de Arão Valoi, publicado no Pais, 19 Março 2005]

terça-feira, março 22, 2005

Latinidade

1. Da Evolução (ou, línguas de civilização, línguas de cultura?):

"Da colonização nasceram, assim, povos latinos de todas as cores, grandes e pequenos, repartidos pelos quatro continentes. Alguns atingiram a maturidade, efectuaram uma síntese duradoura dos contributos europeus e indígenas; outros, sobretudo em África e no Pacífico, continuam no estado de precipitação instável". (197)

"O peso de uma língua depende de um certo número de condições todas elas necessárias, não sendo nenhuma suficiente. Quer se trate do pleno emprego da língua nacional, ou da capacidade de uma língua se impor nas escolas estrangeiras, como segunda língua, as principais condições requeridas, indissociáveis, são o número e o trabalho dos homens, este último criador de dinheiro. Esta condição dual pode exprimir-se em termos de contabilidade nacional: um grupo linguístico que não fabrique um PNB de pelo menos 1000 biliões de dólares (assegurando um PNB per capita de pelo menos 200 dolares) já não é, nos nossos dias, culturalmente protegido." (211-212)

2. Do Francês

"Quanto ao Quebeque, emblema da América francófona, e porque não da América Latina do Norte, como se encontrará dentro de vinte ou trinta anos? O Quebeque devia tornar-se independente ou ter mais filhos, e mesmo, se possível as duas coisas". (199)

3. Do Francês e da Contiguidade Territorial

"Podemos mesmo sonhar com um conjunto económico equatorial de quatro milhões de quilómetros quadrados, de Douala a Lubumbashi, cerca de 130 milhões de habitantes em 2020." (199)


4. Do Português

"Em 2020, segundo o Population Reference Bureau de Washington, a África Portuguesa [meu sublinhado, JPT] terá quase 60 milhões de habitantes, distribuídos por mais de 2 milhões de kilómetros quadrados. [...] A guerra civil na África Portuguesa [meu sublinhado, JPT], o mau governo e a má administração em certas regiões do Brasil, o capitalismo selvagem em outras regiões, ainda entravam o desenvolvimento agrícola dos grandes países lusófonos (...). (209)

5. Da inexistência das outras línguas, da a-conceptualização do outro (do agente glotocida?).

"Contudo, o preço a pagar para conservar a sua língua, um mínimo de originalidade cultural e, portanto, a sua alma e a sua razão de ser num mundo ameaçado de nivelamento pela base, parece irrisório..." (...) "Preservar a língua e a cultura por meio de uma política coerente, esperando por melhores dias em que a industrialização permitirá tirar partido do peso demográfico, é, portanto, o imperativo do mundo românico."(214)

[Philippe Rossillon, "O Futuro da Latinidade", in Georges Duby, (org.) A Civilização Latina. Dos Tempos Antigos ao Mundo Moderno, Lisboa, D. Quixote, 1989]

*********************

Poder-se-á sorrir, desvalorizando estas veras pérolas. Mas o autor era, à altura, Secretário-Geral da União Latina - não se lhe pode negar a legitimidade do pensamento, como representante do mainstream.

Entretanto o livro em questão é um verdadeiro tratado sacralizador da ideia de "latinidade" do Século XXI: organizado pelo monstro Duby, isso possibilita apelar ao passado como caução (quem contesta Duby?), integra entre outros, o sábio-mor Eco, o sábio do quasi-hoje Mauro, o linguista Houaiss (que, justiça seja feita, não refere a África Portuguesa). E, sacralização máxima, até Homero, perdão Borges. E assim se afirma o óbvio.

segunda-feira, março 21, 2005

Arquivo

No longínquo Maio passado (uma blogoeternidade) troquei textos com o Luís Carmelo sobre a Lusofonia.

Ele deixou vários, que me lembre este, este, este, este, e este.

Eu deixei algumas referências bibliográficas (em parte agora retomadas), transcrevi um felino artigo de Tomás Vieira Mário, referindo ainda (de passagem) o caso de Macau, por via do Ad Tempus.

Aqui ficam, para hipotéticos interessados.
O Antigamente, o novo blog do Marco, é uma delícia. Já clicou, para ver como é?

É do dia

Blog Lusofonia.

[via Pantalassa]

É do dia (III)

O Sono dos Filhos


Contra a palma das mãos
sua respiração traz-nos
o infinito lume
de um sol lembrado
na memória dos olhos.

Banho-os nocturnamente
com lágrimas de gelo
e eles riem revolvem-se
no doce útero do sono.

Nesse calor original
minhas desastradas mãos sabem
que trepida como nunca
o coração do mundo.

[Heliodoro Baptista, Por Cima de Toda a Folha]

É do dia (II)

...

(Desde quando insatisfação
quer dizer pessimismo?
A água suja não pode
ficar clara e potável?)

...

[Heliodoro Baptista, "Detalhe", Por Cima de Toda a Folha]

É do dia.

As ciências devem ser poetizadas. (Novalis)

domingo, março 20, 2005

Ligação (não gratuita) a um velho texto de Antonio Tabucchi [em francês].

David Borges

[via Abre-Surdo]

A saber da saída de David Borges da RDP-África. A lamentá-lo, pois David Borges é peça incontornável desse projecto. E homem de voz crítica (voz metafórica, que literalmente tem uma belissima voz radiofónica) e sabedora. Uma raridade no meio jornalístico português que olha África - e, sem facilitismos, também uma raridade na própria RDP-África.

O Abre-Surdo aventa que David Borges terá sido afastado. Espero que não. Mas não descreio. Acima de tudo fica daqui do Maputo a nota. Se quiserem a homenagem, a um bom e avisado profissional. Que sempre deu prazer e saber ouvir, cá de tão longe.

sábado, março 19, 2005

O véu da língua. E o veneno da mamba.

Não quero eternizar aqui a argumentação sobre a falácia "lusófona". Mas uma nota mais, com alguns pontos, e com um profundo desagrado.

O véu da língua.

No blog Blue Everest, que também a abordou, apresenta-se um belo texto que me permito re-citar, porque sintetiza parte do que quis afirmar.

"Il y a quelque chose de drôle, à vrai dire, dans le fait de parler et d'écrire ; une juste conversation est un pur jeu de mots. L'erreur risible et toujours étonnante, c'est que les gens s'imaginent et croient parler en fonction des choses. Mais le propre du langage, à savoir qu'il est tout uniment occupé que de soi-même, tous l'ignorent. C'est pourquoi le langage est un si merveilleux et fécond mystère : que quelqu'un parle tout simplement pour parler, c'est justement alors qu'il exprime les plus originales et les plus magnifiques vérités. Mais qu'il veuille parler de quelque chose de précis, voilà alors le langage et son jeu qui lui font dire les pires absurdités, et les plus ridicules. C'est bien aussi ce qui nourrit la haine que tant de gens sérieux ont du langage. Ils remarquent sa pétulante espièglerie ; mais ce qu'ils ne remarquent pas, c'est que le bavardage négligé est justement le côté infiniment sérieux de la langue. Si seulement on pouvait faire comprendre aux gens qu'il en va, du langage, comme des formules mathématiques : elles constituent un monde en soi, pour elles seules ; elles jouent entre elles exclusivement, n'expriment rien si ce n'est leur propre nature merveilleuse, ce qui justement fait qu'elles sont si expressives, que justement en elles se reflète le jeu étrange des rapports entre les choses. Membres de la nature, c'est par leur liberté qu'elles sont, et c'est seulement par leurs libres mouvements que s'exprime l'âme du monde, en en faisant tout ensemble une mesure délicate et le plan architecturale des choses. De même en va-t-il également du langage : seul celui qui a le sentiment profond de la langue, qui la sent dans son application, son délié, son rythme, son esprit musical; - seul celui qui l'entend dans sa nature intérieure et saisit en soi son mouvement intime et subtil pour, d'après lui, commander à sa plume ou à sa langue et les laisser aller : oui, celui-là seul est prophète. Tandis que celui qui en possède bien la science savante, mais manque par contre et de l'oreille et du sentiment requis pour écrire des vérités comme celles-ci, la langue se moquera de lui et il sera la risée des hommes tout comme Cassandre pour les Troyens." (Novalis)

Para uma argumentação neste sentido poder-se-ia também apelar a linguistas ou a antropólogos p.ex. Mas está assim muito bem. Aqui se expressa a dimensão agregadora, identificadora, da língua conceptualizadora/formadora. E daqui também retiro, a um nível, a necessidade de não postular "lusofonias" em universos que não o são.

Lendo este texto, aceitando-o, e utilizando-o, poder-se-á dele retirar, implicitamente, a histórica incapacidade da modernidade portuguesa em estudar e apreender o outro, de o compreender como sujeito e não mero objecto. Incapacidade constantemente reafirmada no discurso actual, sintetizada e cristalizada na pacífica lusofonização de pendor cultural(ista) e político que aquele ecoa.

Note-se, quatro séculos de Macau não criaram uma sinologia proporcional, a proximidade magrebina não originou uma abordagem à língua e cultura árabe, quatro séculos de possessões indianas idem. E um século de colonialismo em África deixou um escasso trabalho da bantologia linguística, moribundo se não mesmo falecido na actualidade. Porque há um traço recorrente, o vazio alhures. Persistente.

É esse vazio alhures que se impõe no caso da moderna "lusofonia", com mais ou menos recurso a uma fundamentação poético-épica. Possibilitada e produzida pela tábua rasa que se faz do diferente outro - se este fala português tem uma identidade (cultural, e daí política) comum. Esquecendo ser a minoria que fala português, esquecendo ser a máxima minoria que fala português como língua primeira. Esquecendo que mesmo nestes casos o substrato cultural não se cria apenas numa geração de língua como estruturadora da classificação e mentalidade. Tanto esquecimento, ou seja, o outro só existe no que é (quase) como nós.

E logo permitindo o salto da língua (pouco) comum à identidade cultural. E desta à comunhão, um outro pequeno passo. Comunhão de afectos e de interesses, cujos ecos encontramos amíude em literatura oficial, oficiosa e outra. E na oralidade anónima, quase sempre paternalista.

E é esse o fundo ideológico que afirma a comunidade de países e de populações. A comunidade de interesses. Como se fosse essa uma necessidade histórica. Tudo rápido, tudo impensado. Porque tudo assente nesse (desejado) desconhecimento, a tal simplificação, a tal linearidade. Sob o véu da língua.

Depois há ainda a história, a mais longínqua e a mais recente, como húmus da tal "comunhão" afirmada (e desejada). História que assim tem que surgir asséptica, esvaziada do que não produza tal objectivo. Teleológica. Mais uma vez, simplificação, apagamento. De novo o véu da língua, nada mais.

[permito-me a auto-referência. Para quem se interesse e tenha paciência repito uma velha referência que fiz a um texto não bloguístico, longo e porventura maçudo, onde procuro abordar a ideia "lusófona" em termos da conjunturalidade, temporal, geográfica, sociológica, do relacionamento entre populações. Onde não afirmo antinomia ou comunhão apriorística. Modesta tentativa para fugir ao tal véu da língua. E a qualquer estigmatização. E para que não se diga que sou inimigo de relacionamento]

2. Do veneno da mamba.

Entretanto, ao longo do bloguismo tenho tido muitas discussões com o Tugir, um blog assumida e activamente socialista, discussões na sua maioria por isso mesmo. Por vezes brincou-se. Por vezes chispou. Agora virou discussão sobre lusofonia. Cada um terá a sua opinião e não vou insistir nos meus pontos de vista.

Ontem aqui citei Eduardo Lourenço, no seu alerta:"Os portugueses que não pensam assim não são bons portugueses." Hoje leio que LNT, depois de tantos diálogos e discussões havidos, entre uma série de pedradas absurdas, inova na minha categorização. Para ele, agora, em contexto de discussão sobre a "lusofonia", e porque dela crítico, passei a ser um português moçambicano. E, por mais voltas retóricas que LNT venha a dar, esta nova categorização é óbvia, significa que para ele a minha atitude diante da lusofonia se origina num esbatimento (mesmo que por complexificação) da minha identidade portuguesa. Ou seja, se não aceito um discurso corrente, mainstream, é por deficit identitário: "se não pensas como nós (já) não és dos nossos". O que me reduziria, obviamente, a legitimidade e a acuidade opinativa. Uma, não pouco elaborada, forma de exclusão. Exactamente o que está inscrito na tal citação de Eduardo Lourenço.

Poderia adjectivar ideologicamente essa atitude de LNT. Ou poderia graduá-la de melhor a pior. Ou poderia calá-la, encerrada que está num texto absurdo, de imputações excêntricas e infalsificáveis. Ou posso resumi-la, que é o que me ocorre: é execrável.

Mas não original. Tem geneologia e marca de água.

Passo adiante. Mas sabendo, com a minha idade, que esta gente é mamba.
O excelente Contra a Corrente (uma das minhas primeiras blogoleituras) cumpre hoje o seu aniversário. Que conte muitos mais, é o desejo nesta horta.

sexta-feira, março 18, 2005

Lusofonia - conclusão

Por inadaptação tecnológica ao sistema blogger, aviso os hipotéticos interessados que acabo de colocar a conclusão a esta reflexão sobre a lusofonia no velho Ma-Schamba.

continuando com antepassados

"Em nome do passado, Portugal há muito se outorgou uma percepção mundialista da história e integrou esse dado na sua particular imagem de povo de vocação universalista. Não está errado, e, mesmo que estivesse, esta mitologia do nosso providencial universalismo cria uma exigência que sem ela reduziria a nossa cultura à mera irradiação empírica de povo não hegemónico numa Europa também já não hegemónica. Graças a essa mitologia, sentimo-nos menos desarmados nesta batalha visível e invisível de que as identidades e as culturas particulares - mesmo as de maior espessura no passado - são o verdadeiro objecto, o que está em causa. Mas este excesso de passado, vendo bem, não nos garante nada. Pode ser mesmo, no seu papel reconfortante, um paradoxal inimigo de nós mesmos..." (106)

"É detrás dessa muralha da China do que fomos, ou antes de um passado voluntária e nada inocentemente mitificado, que nos encerrámos para que um futuro onde nos não vemos como nos sonhámos se esqueça de nós e nos deixe à glosa interminável da nossa felicidade onírica.

Na ordem quotidiana, Portugal e os Portugueses adaptam-se às chamadas necessidades do real com um pragmatismo que espanta numa cultura tão lírica. Na ordem do imaginário, esse famoso lirismo ... não desmente esse pragmatismo. Mas os seus efeitos são inversos, porque o seu escopo não é o de transfigurar ou superar os obstáculos, mas de os evaporar. Vamos para o século XXI em carruagem-cama, indiferentes às tragédias do mundo e às nossas próprias. Os problemas caem-nos em casa já resolvidos. É o mundo que tem problemas, não nós. Os portugueses que não pensam assim não são bons portugueses. Nunca o foram....No tempo de Salazar imaginou-se que essa maneira nossa de não estar no presente e diferir simbolicamente o futuro era um vezo de uma ideologia assumidamente conservadora. Não era. Apenas uma expressão coerente dela. Vinte anos após o fim de tão longo reino, agora vivendo e vivendo-se como normalidade democrática num tempo europeu e no mais vasto de uma cultura planetária do estilo americano, Portugal e o tempo português não mudaram de configuração. (...)

A que se deve tão extraordinária capacidade de estar fora do tempo como presente ... ? Reflexo de velho povo e velha cultura, conscientes de que o seu embate sério com uma sociedade tão incontrolável como a que a cada segundo atravessa os ecrãs planetários nos destruiria? Ou íntima convicção de que, mesmo ganha, a nossa aposta num futuro incontornável nunca nos trará de volta aquela imagem que veneramos sob as várias metamorfoses de um quinto império? (...) Reciclámos os restos imperiais que é o melhor que temos e único sinal de mútuo reconhecimento. (...) Enquanto o tempo da realidade se nos impõe e nos arrasta sem contemplações, o nosso tempo simbólico converte-o - e não só na ficção - em fantasmagoria virtual. (...) entraremos no século XXI. E com ele, queiramo-lo ou não, na história real, a nossa, de pequeno povo e sonhos compensatórios, para que não nos demos conta disso. Será o fim do tempo português e o começo do tempo de Portugal, um país como os outros a contas nunca certas com o tempo. Quer dizer, com a rugosa essência da realidade." (107-109)

[Eduardo Lourenço, "Tempo português", em A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia, Lisboa, Gradiva, 1999]
"Nada há mais feio que dar pernas longuíssimas a ideias brevíssimas."

[Machado de Assis, Dom Casmurro]

Lusofonia (agora feitiço alheio)

De Bruxelas dizem-me que só sentem em casa no espaço da lusofonia, e isso sem sentimentos imperialistas.

Pois acredito que assim sinta. Nem mais. E que considere natural que as pessoas que falam a mesma língua se sintam na mesma casa (como família, vizinhos, amigos - comunidade; comunhão).

Pois, mas eu acho que nada é natural.

E, independentemente do que se sente em Bruxelas ou alhures, não compro leituras que se querem apolíticas (leia-se naturalizadoras) da história e do presente.

Não compro cânticos lineares. Não ouço mais paternalismos. Nem coitadismos.

E quando ouço um tonto chamar a outro "lusófono", assim imputando-lhe cultura/disposições/"Ser"/solidariedades/"etcs." e este lhe reage, sem animosidade ou com ela, que não é "lusófono" mas sim "bantófono" (p.ex.) eu concordo, sorrio e concordo. E acho o tal "lusófono" ignorante e imbecil.

E, atenção ao que é mais importante, acho-o incompetente no que toca aos interesses do seu país. E incompetente no que respeita aos interesses dos seus "homófonos". E incompetente no que toca à defesa da sua "fonia". Em suma, digno do caixote do lixo intelectual. E, em muitos casos, da cloaca moral.

Cinzento de Bruxelas, eu sinto-me em casa em português. Não em lusofonês. Percebe-se a gigantesca diferença?

E, se calhar, em português me sinto em casa, mas com tendências e desejos imperialistas. Porque o meu luto não é revolucionário, terceiro-mundista. É (apenas) crispado com a tontice irreflectida, embrulhada no afã pululante.

Cumprimentos Pituxa, e desejos de bom clima.

Lusofonia (os medicamentos não fazem efeito?, invoquem-se os antepassados)

"...a lusofonia é apenas o resultado da expansão portuguesa e da língua que esta operação teria espalhado generosamente pelo mundo fora. Ou seja, seria menos o resultado de um projecto, do que a consequência inesperada de uma maneira particular de circular pelo mundo. Nesse aspecto, a portugalidade opõe-se certamente à lusofonia: a primeira é o resultado de uma oposição constante aos espanhóis (...) ao passo que a lusofonia seria a consequência quase passiva da expansão e da banalização da língua.

A criação da lusofonia, quer se trate da língua, quer do espaço, não pode separar-se de uma certa carga messiânica, que procura assegurar aos portugueses inquietos um futuro senão promissor, em todo o caso razões e desrazões para defender a lusofonia.

A independência das nações africanas, obrigou os teóricos da colonização portuguesa a modificar de maneira substancial o seu vocabulário. Tal como se verificara já no caso francês, que já nos anos 1962 começou a banalizar a noção de "francofonia" [nota de rodapé: "...o sentido actual...visa manter o espírito colonial, salientando a importância do cimento linguístico".] Respeitando um velho movimento de submissão cultural, não puderam os portugueses furtar-se ao modelo tradicional, tendo criado, após 1974, a lusofonia.

Uma parte deste esforço teórico baseia-se na língua: a utilização do português seria a prova da existência de uma "comunidade lusófona". Outros mais argutos, sublinham a importância do "espaço lusófono". Dependendo embora da língua, seria também, quando não sobretudo, a consequência de uma "história comum"..." (13)

"Verifica-se, após 1974-1975, uma modificação subtil mas constante, cabendo agora à língua portuguesa - que se confunde com uma falsa língua lusa- a tarefa que foi durante muitos anos a dos territórios. Portugal passou a ser um país pequeno, mas dispondo de um agente específico, a língua portuguesa, que lhe permite recuperar a sua "grandeza". Trata-se de uma prótese singular, mas que começa a revelar-se eficaz, permitindo recuperar - de maneira quase glotofágica - as culturas dos Outros." (28)

"Hoje, uma fracção substancial dos teóricos da "portugalidade", fazem da língua o agente mais eficaz da unidade dos homens e dos territórios que foram marcados pela presença portuguesa. Não tendo havido uma grande reflexão anti-colonialista antes das independências, registou-se a necessidade urgente de organizar uma ideologia explicativa: os portugueses foram obrigados a renunciar à dominação política e económica, mas procuraram assegurar o controle da língua. (...) se a língua não for capaz de assegurar a perenidade da dominação colonial, os portugueses ficarão mais pequenos. A exarcebação da "lusofonia" assente nesse estrume teórico..." (57)

"Por essas razões a língua acabou por se transformar, à nossa vista, com o nosso pleno conhecimento em agente suficiente de dominação. É certo estarmos perante uma reformulação da teoria, pois Gilberto Freyre considerava que a sexualidade, a "pica", era suficiente para assegurar a lógica e a perenidade dessa dominação. Se bem que não se tenha eliminado a fortissima contribuição da sexualidade, a verdade é estarmos hoje perante teses mais asseptisadas, que confiam à língua a tarefa principal de manter e de alargar o campo da dominação portuguesa". (74)

"O meu intuito era muito simples: quis mostrar como nos recusamos, que como colectividade, quer como indivíduos, a analisar de maneira sistemática as técnicas utilizadas para tratarmos os Outros. O discurso "lusófono" actual limita-se a procurar dissimular, mas não a eliminar, os traços brutais do passado. O que se procura de facto é recuperar pelo menos uma fracção da antiga hegemonia portuguesa, de maneira a manter o domínio colonial, embora tendo renunciado à veemência ou à violência de qualquer discurso colonial." (76)

[Alfredo Margarido, A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses, Lisboa, Edições Universitárias Lusófonas, 2000]

Lusofonia (mais)

Gosto de várias coisas no grande bloggard Paulo Querido. Uma delas é quando ele diz que vai tomar os comprimidos. Agora é o que vou fazer.

Lusofonia

Já escrevi sobre o assunto no velho velho Ma-Schamba. Escrito teórico, está claro. Nunca ideológico...

quinta-feira, março 17, 2005

Pois é prezado MacGuffin, concordo, concordo. Em tudo. E, paradoxalmente, apenas em parte.

Porque a liberalização do comércio será fundamental para o desenvolvimento do sul (simplificação este norte-sul, mais um chavão). E provocará ondas de choque lá nos nortes. Com resmungos e oposições dos antigos internacionalistas, claro.

Mas a liberalização do comércio não chega. Cá em baixo produzem-se a baixa produtividade (aumentará com o mercado, claro) produtos primários. E os mercados estão cheios (aqui resmunga-se, o algodão, a copra, o sisal, o milho, etc, etc,) - algo que não aconteceu noutros processos de desenvolvimento, em épocas outras. E mais, alguns desses mercados estão controlados, muito cartel explícito e implícito - a Mão será Invisível mas a Luva da dita manápula não é nada branca, é bem Berrante. Peço desculpa aos hipotéticos leitores, sei que quando se põe em causa a invisibilidade da dita se ofendem os liberais (económicos), é afirmação tão anti-cristo como dizer aos comunistas que não há ideologia de classe economicamente determinada.

E quanto a uma industrialização, enfim, seria preciso mais do que eu para alinhavar os tantos obstáculos para que surja ela, rápida e em força. E competitiva.

Quebrar o proteccionismo (quando não houve proteccionismo?) é fundamental para um impulso. E que impulso! Mas há que fazer intervir mais do que o mercado. Para, e simplificando, não reproduzir na eternidade a diferença riquissimos-paupérrimos (mesmo que então já não moribundos). Estados? Organizações internacionais (Estados conjuntos)? E aqui isso chocará com as perspectivas do centro e direita, sabida que é a tradicional aversão ao subsídio, à "ajuda", à intervenção estatal (excepto quando somos o receptáculo, claro está). Em suma, um verdadeiro desenvolvimento internacional implica um susto generalizado nos canteiros intelectuais aí. Era só isto.

E já agora, nesta questão os telhados aí já não têm vidros. E espero que chova bem. E que neve.

Lusofonia - e a falta de paciência radical. Nem dá para contra-argumentar

Reflexo condicionado? Inconsciente colectivo? Ethos partidário? Ideologia de classe? Internacionalismo proletário, perdão, linguístico? Etcs variados?

Pois mal o governo socialista ascende e lá surge a arenga lusófona, em banho-maria antes, a propósito de causas várias, e já nem falo do Cabo Verde ilhas adjacentes em momento europeísta (a gerontocracia é eminentemente pré-moderna e não é pós-moderna). Lá vem a partilha de língua como comunhão de valores civilizacionais, de interesses, de afectos, um projecto não-ideológico claro está (ai meu Deus!!, meu Deus!!, que horror isso da ideologia, não diga uma coisa dessas ó amigo Teixeira), é uma coisa apenas identitária. Na blogolândia, logo, logo, e decerto que por aí mais, e acredito que por esse out-blog português, ainda mais pronto, fervilhante já.

Está-se a ver, temos à frente uns anos de tralálá. É o raio do Império que não se acaba. Que não, que não, que é má vontade, dirão os lusófonos, pois então não é natural? uma língua comum, um património comum, tão amigos que somos, fomos e seremos, "eu amo-te" e "e eu também", "entre as tuas coxas vou e venho", etc e tal, nada de galicismos, nem no canto, e abaixo o inglês [e já nem falo do alemão que é nazi, nem do castelhano que é espanhol], o que é importante é a nossa língua, a preservação da cultura. Um vácuo, é o que é. Porque ideológico, apesar dos meneios virginais a negar-se? Não, que o seja, que o seja. Porque incompetente. Ignorante. E não me venham com os galões académicos a ofender-se. Chega.

E tão a jeito para o kim-il-sunguismo, a fotozinha no destacável, o congresso da ideia zuk ou souk ou juk, lembro-me lá do nome da tralha, amais as actas vibrantes em formato A4 730 páginas, um "documento fundamental".

Siga a marinha. A lusófona, diga-se. Em mais um capítulo da história ridículo-marítima.

Maldito aparatchiquismo intelectual. Antes a rapaziada dos espoliados do ultramar e das merdailles aos ex-combatentes. Ao menos não fingem enganar(-se).

quarta-feira, março 16, 2005

Ainda mulheres e política

Sobre as mulheres na política, e o exemplo moçambicano, há alguns dados apresentados no Chuinga.

Esquerda e direita

O Contra a Corrente a escrever sobre "ajuda pública ao desenvolvimento", a tal vulgo "cooperação" (a "ajuda humanitária" é algo diferente, e isto sem formalismos).

A começar bem, é na defesa do contrato social do norte que a esquerda desse norte se desesquerdiza (desacredita) completamente (e também por aí tanto fel anti-esquerdalho que o Ma-schamba destilou) - fazem-no por interesse e por impensamento, misture-se, não é só ideologia é também muita ignorância. (a um tonto que um dia me veio chatear com o meu "direitismo" disse-o "do bairro"; em versão mais letrada chamar-lhe-ia deficit em "mundividência")

Pena é que o excelente Contra a Corrente se fique aqui a meio da corrente, perdoe-se-me o fraco trocadilho. Porque as políticas proteccionistas a norte e a reprodução de um modelo de "cooperação" que privilegiou os interesses político-económicos dos países doadores (por vezes chamados geo-estratégias, outras vezes sufixados de "fonias" variadas), sendo mecanismos de reprodução da pobreza e de perversões políticas a sul, têm sido sistematicamente defendidos pelos diversos poderes políticos no seio dos países mais desenvolvidos.

Em suma, não vale a pena pegar nestes casos para atirar pedras aos "louçãs e carvalhas". Conviria falar mesmo. Ou seja atirar pedras aos "louçãs e carvalhas" do centro e direita, que também eles têm violado os valores e princípios ideológicos que apregoam - a defesa do comércio livre (em alguns), o respeito pelos indivíduos/comunidades/vida humana ou direitos humanos (as terminologias e enfoques variam consoante tempo e espaços ideológicos). Também esses "carvalhas e louçãs" se "desdireitizam" ou se "descentralizam" (desacreditam) com décadas de política internacional de ajuda ao desenvolvimento subordinada a objectivos e metodologias absolutamente contrários aos seus princípios apregoados.

Com uma pequena diferença, caro MacGuffin, é que o poder não tem (felizmente) estado nos tais "carvalhas e louçãs" que lhe ofendem as meninges. Mas mais nos outros. Os quais, francamente, também me infectam o intelecto quando me ponho a pensar nestas coisas.

Serve esta arenga para resmungar, de nada vale esse brinquedo "olhá esquerda que hipócrita", "olhá a direita que facista". Esse é um contrato social, o resto é folclore. Desacreditador.

Quanto à iniciativa de Blair, que é o que realmente interessa, ela poderá dar frutos. Vamos a ver. Alguns sinais são positivos. Acima de tudo o, fundamental, conluio entre UE e EUA numa política de desenvolvimento internacional. Questão a acompanhar. Porque algo tem que mudar.

Muito para além das birrazinhas in e out-blog. Da pequenez lusa, perdão, da pequenez portuguesa. Que eu sou neto de Roma, não um de um qualquer porqueiro lusitano. E os meus patrícios também.

"Raças" e Racismo. "Mulheres" e Géneros

[Via Forum Comunitário]

1. Cores.

Um excelente artigo de R. Pena Pires no jornal Público. A lembrar-me uma apressada troca de impressões, ocorrida no mês passado, com o Miguel S. do Sem Destino, acerca da racialização do discurso. Que aqui vigora e, pelos vistos, também no meu rincão.

Acho fundamental citar Pena Pires (e ensiná-lo nas escolas , e esta é ironia apenas ligeira. Ainda haverá livro de português no liceu? Daqueles com trechos chatos de autores do antanho? É colocá-lo.): "Para Ká, o problema do racismo resulta do desigual tratamento das diferentes raças. Errado! Só há raças, como representações colectivas e entidades culturais, porque há racismo. Isto é, porque se define alguém como outro em função da cor da pele, hierarquizando-se, num segundo passo, os "nós" e os "outros" assim definidos. A pior resposta ao racismo é pois aceitar a categoria de raça como classificação social pertinente e natural. A boa resposta é insistir na universalidade do género humano e combater todas as formas de discriminação em função da cor da pele...

Insistir na necessidade de recrutar para a participação e liderança política cidadãos de todas as cores de pele é fundamental, como fundamental é aproveitar todas as oportunidades para criar bons exemplos públicos desta orientação. E, convenhamos, tem havido um défice real de actuações nesse sentido, em particular por parte dos principais partidos políticos". [foi o que na altura eu quis sublinhar] "Mas se, com a pressa, criarmos quotas raciais, teremos capitulado perante o racismo em vez de dar passos decisivos para a sua superação, pois teremos introduzido na lei critérios raciais. (De passagem, um pequeno reparo: a pior forma de concretizar oportunidades de participação de portugueses negros no sistema político é começar por acantonar essa participação em lugares de combate ao racismo e à exclusão.)"
.

Em suma Miguel, , aproveito isto para (me) reafirmar - as quotas nada resolvem e, neste caso, até pioram pois reificam. E urge combater o discurso racialista: aqui ambíguo, desvalorizador do outro (Em Cor) em determinados contextos socioeconómicos, e valorizador do outro (Em Cor) noutros contextos socioeconómicos (do "Brrranco" desprezível ao "Patrão" benfazejo). No meu país também presente, sempre desvalorizador do outro (Em Cor) ou quase sempre desvalorizador do outro (Em Dinheiro) - como o prova o estudo sobre xenofobia hoje anunciado na imprensa portuguesa (onde estás Gilberto Freyre sublido? onde estás Lusofonia benfazeja?) - uma sociedade igualitária, Miguel? Tendencialmente, tendencialmente...

2. Genitais

O WR vai batendo nas críticas feitas ao novo governo português por não ter mulheres. Também aqui as cotas/quotas me repugnam - mas acho interessante as mulheres ministras serem da Cultura e Educação. Só falta a Saúde para que às mulheres no poder estejam atribuídos os sectores dos cuidados maternos, enfermagem e lavores (bordados, culinária requintada, piano à ceia) - resquícios de um inconsciente colectivo burguês oitocentista?

Mas concordo, não deve haver mulheres no poder só porque são mulheres. Cotas nunca, Abaixo as Quotas!! - ainda que reificar géneros seja aparentemente mais natural do que reificar raças, isso não é verdade.

Mas permito-me comparar (que fazer?, deformação profissional). Em Moçambique, onde as condições da domesticidade são decerto diferentes dos que as em Portugal, e onde a falofilia (ou mesmo falocracia) será aparentemente mais dominante, o novo governo integra não só uma Primeira-Ministra como muitas ministras e algumas vice-ministras - e não por cotas/quotas, mas sim por uma ideologia integrativa, o omnipresente "género". Nem tudo será equitativo, mas isto é obviamente o resultado de décadas de afirmação dessa preocupação social - que tem efeitos sociais. Mesmo que não idílicos - será necessário conhecer em detalhe a realidade moçambicana, e suas concepções de poder, para perceber o efeito extraordinário no seio das famílias da presença constante e muito visível de um cada vez maior número de mulheres na hierarquia política?

Em suma, aí ó desenvolvidos, cotas/quotas homens/mulheres não? Mas olhando aqui para o espelho do sul não dá para perceber que falta alguma coisa?

Papel Vegetal

É azul cobalto o melhor papel vegetal?

Para bom(a) entendedor(a) pequeno post basta

Este blog não tem uma grafia diferente do seu antecessor. O que tem é um nome diferente. Despluralizou-se, pois o ritmo não poderá ser o mesmo.

Este blog anseia pluralizar-se. Não haverá algum(a) candidato(a) a participar? Condições mínimas exigíveis existem: alguma decência moral, o que implica tino ideológico (nada de neo-colonos lusófonos nem de esquerdalhos gaiteiros). E a grandeza do erro ortográfico e da sintaxe confusionista. E boas referências de empregos anteriores, claro está.

O sign in está aberto.

Para hipotéticos interessados

Depois de anos (não é exagero) esperando que mo vendessem, e de inúmeras tentativas de descerrar o pérfido armazém que o cofreou, consegui hoje adquirir o "Resultados Científicos da Minha Viagem de Pesquisas Etnográficas no Sudeste da África Oriental", de Karl Weule (Maputo, Ministério da Cultura/Departamento de Museus, 2000 [!!!, sim, o ano da publicação não é erro, mas só agora foi posto à venda]).

Esta absoluta preciosidade (com preço muito acessível, 300 mil meticais) foi traduzida e comentada pelo Prof. G. Liesegang. Aqui deixo trecho da nota introdutória [do Departamento de Museus] para acicatar apetites:

"Karl Weule, Professor e na época Director substituto do Museu de Etnografia de Leipzig, foi encarregado de chefiar, em 1906, uma expedição à então África Oriental Alemã a pedido dos Serviços Imperiais Coloniais a quem interessava investigar a terra e os homens das colónias alemãs. Weule realizou trabalho de campo no sul da Tanzânia [então Tanganyka, JPT], então colónia alemã, durante quatro meses e o resultado desse trabalho é o relatório agora traduzido para o português. Weule descreve as culturas Makhuwa, Yao, Ngoni e Makonde partilhadas entre Moçambique e a Tanzânia."

[Como não sei colocar imagens neste sistema blogspot instalarei a capa do livro, e algum material nele incluso, no velho Ma-Schamba do weblog (Já: ai, que saudades, ai, ai)]
Uma verdadeira migração, lá da terra do weblog.