quarta-feira, março 23, 2005

Afinal, desindustrialização?

Aqui referi a problemática da abertura dos mercados. Necessária e fundamental. Mas por alguns vistos como resolução - como se a um omnipotente Estado "Paizinho dos Povos" se sucedesse uma outra omnipotência, a do Mercado Mágico.

Que formas históricas assumiu o liberalismo económico? E em que condições globais? São questões pouco dadas à proclamação de grandes princípios, e à negação (analfabeta, pois então) dos conteúdos sociopolíticos da economia. Muito em voga no meu país, que o giro iletrado dá jeito à gargalhada. E à audiência.

A este propósito transcrevo uma notícia do jornal "País". Apenas uma notícia de jornal, não uma verdade indiscutida. Mas a questionar os factores do desenvolvimento africano.

***

Os produtores de algodão da África Austral estão preocupados com os baixos preços do algodão no mercado internacional, para além da generalizada falência que caracteriza o sector têxtil e de confecções de todo o continente. (...) as dificuldades que caracterizam o sector do algodão na África Austral são os mesmos de todo o continente. O grande constrangimento relaciona-se com os baixos preços praticados no mercado. (...) a abertura que aconteceu a partir de 1 de Janeiro do ano em curso está a impor uma outra dinâmica no mercado mundial (...) os países africanos não estão em condições de concorrer com os grandes produtores tais como a Índia, a China e a Indonésia. (...) Existe a percepção que o Lesotho conseguiu estabelecer a sua indústria têxtil e de confecções, mas trata-se de uma realidade aparente (...) a tendência também é para cair. O Quénia, por exemplo, só tem encomendas para mais um mês...

[texto de Arão Valoi, publicado no Pais, 19 Março 2005]

5 Comments:

Blogger Miguel S. said...

Aprecio sobremaneira estes temas jpt. A produção de algodão e o têxtil são duas coisas completamente diferentes, convenhamos. África nunca teve qualquer tradição no sector. O cenário retratado não é de agora. Ainda durante os anos 90, finais dessa década, o sector em Moçambique sofreu bastante com a queda dos preços nos mercados internacionais. Tanto quanto me lembro, a Agrimo andava a penar e a Lomaco acabou por encerrar/vender a sua actividade em Montepuez. Sinais dos tempos. Isto há 5-7 anos atrás.

O que é que aconteceu entretanto em Moçambique para fazer face à evolução do sector? Se calhar o mesmo que em Portugal, os mesmos que gritam au secours. Depois sempre tinhas por aí uma JFS e um Entreposto que vendiam a Portugal, Jofesa e provavelmente Entreposto. Com a Lomaco a exportar sobretudo para a Hungria.

Não se poderá imputar exclusivamente à China e Índia as razões para a "desgraça" do sector em África. Os problemas são muito anteriores. Seria necessário estudar o sector para perceber o que é que se alterou do lado da oferta e da procura, para então tecer considerações mais ajuízadas.

Podia aqui falar-te de um sector em que estive envolvido durante vários anos, aí em Moçambique. Surpresa das surpresas! O mundo evoluiu e Moçambique não. Os outros investiram e Moçambique ficou "agarrado" ao que sempre fizera, enquanto o mundo, lá fora, continuava a evoluir. Os fundos do Banco Mundial foram mal aplicados em inúmeros casos sem que houvesse qualquer visão a médio-prazo e/ou análise prévia dos sectores para melhor aplicar as linhas de crédito.

O que em Moçambique poderá parecer macro, em termos mundiais é verdadeiramente micro e por isso caso a procura interna não seja suficiente para absorver a oferta há que colocar a produção nos mercados mundiais aos preços "de mercado". No other way around.

Moçambique, e talvez muitos outros Estados, perderam décadas devidas ao atavismo induzido talvez pela guerra, por visões megalómanas de desenvolvimento insustentado porque perdulário na aplicação de recursos sem ter em consideração as realidades nacional e internacional.

Um abraço.

PS-Foi escrito a correr, mas daria pano para mangas.

4:50 da tarde  
Blogger jpt said...

Obrigado Miguel. Muito concordo, ainda que nestas áreas (e em tantas outras) te dê passagem (noblesse profissional oblige). Fui buscar a notícia (e atenção às notícias, como bem sabemos) apenas para sublinhar o tal ponto - não há remédio santo. Tens razão na distinção produção/transformação do algodão, mas não se intuía o contrário. Mas dois pontos, há que industrializar. Como? E em quê? Em que sectores de actividade há vantagens comparativas (espaço)? Em que sectores de actividade a abertura de mercados será produtiva?
Quanto à produção levanta-se o problema, como fazer o fomento do sector familiar se os preços caem, por preenchimento do mercado internacional?
Enfim, nós aqui em tempo a correr, em pequeno espaço, não encontraremos solução - e se a encontrássemos noutro espaço e ritmo era a glória! Mas podemos (é o meu modesto objectivo) atirar algumas pedras aos ídolos abstractos.

5:05 da tarde  
Blogger Miguel S. said...

Um dos problemas jpt é que, pelo menos há uns anos atrás, os grandes grupos económicos presentes em Moçambique - em mãos nacionais ou não - estavam [completamente] descapitalizados. Cristalizaram com o tempo. A cadência dos investimentos foi lenta. Os grandes grupos económicos redefiniram estratégias.

O fomento do sector familiar seria possível mediante um rejuvenescimento ou refrescamento do tecido empresarial moçambicano e de muitos dos actuais PCAs, Administradores-Delegados e Directores Gerais, para além de tantos outros. Agarraram-se a velhos dogmas, sendo completamente incapazes de dar o salto em frente.

É evidente que não vais fazer o que quer que seja seguindo lógicas de desenvolvimento como aquela que entendia lógica existir uma forte produção de matéria-prima em Cabo Delgado (algodão, claro) para que a mesma fosse remetida para Maputo, para transformação, sendo remetida já após uma primeira fase de transformação para Pemba, de modo a fazer mantas na Texmanta. Mantas essas que depois iam para vários pontos do país...

É, quanto a mim, fundamental que o Estado, nesse caso concreto, incentive iniciativas sérias e credíveis em vários domínios do sector. Cabe na cabeça de alguém que grande parte da população continue a ser explorada pela aquisição da sua indumentária nos fardos calamidade dominados pelos indianos/paquistaneses?! Cabe na cabeça de alguém dispor de factores de produção a custos irrisórios, não beneficiar dos mesmos para "atacar" mercados regionais?

Podia contar-te aqui uma história que me levou à África do Sul por diversas vezes, com este país muito interessado no que lhes oferecíamos. E sabes de onde é que vieram as fortes resistências? De dentro. E a África do Sul continuou, e continua, a importar esse produto da Ásia, imagina só da Ásia, quando nós tínhamos para dar e vender aos pontapés abastecendo toda a África Austral se houvesse para isso vontade...

Um abraço que estas coisas metem-me mal disposto.

10:22 da tarde  
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