quarta-feira, março 23, 2005

Ainda

O que é a lusofonia? É falar português? Ou é um quadro de apreensão da realidade (suas características, suas possibilidades)? E, se neste último caso, também de imputação (de características, de possibilidades). E, se assim sendo, estabelecendo-se como um guia de acção (mais ou menos explícito)?

Aquilo que aqui tenho vindo a dizer parece-me óbvio, é que a leitura "lusófona" não é meramente descritiva das características linguísticas. E se isso não é apreendido de imediato é devido à capacidade naturalizadora do argumento linguístico (o "véu da língua" que referi abaixo). Mas este é um óbvio relativo. É o meu óbvio.

No Blue Everest encontro outro registo, no texto lusofonia pragmática. Permito-me um comentário, usando-o para tentar melhor esclarecimento do que tenho vindo a discorrer. Interpreto-o, como texto público que é, mas sem lhe querer imputar ideias ou argumentos.

Lá se encontra outra lusofonia, exclusivamente linguística: A Lusofonia não precisa de ser inventada, pois há milhões de pessoas por todo o mundo que falam português. Não é pois discutível, é uma realidade empírica (e não serei eu a negá-la, como é óbvio).

E, para a enquadrar (não para a legitimar, pois a empiria não tem deficit de legitimidade), citam-se, sem qualquer mediação, os estatutos da CPLP e seus objectivos. Uma relação imediata entre capacidades linguísticas "lusófonas" e um organismo político inter-estatal multilateral . Enfim, acho que há um salto abrupto, empobrecedor, mas nem me vou colocar a discutir ciência política ou relações internacionais (ainda que pudesse lembrar que um organismo formalmente similar como o é a Commonwealth não desenvolveu discursos similares).

E não vou porque há outra leitura desta homologia radical CPLP-Lusofonia: é que sendo positivos os objectivos de cooperação para o desenvolvimento expressos nos estatutos (e na prática) da CPLP, tal homologia pode deixar (atenção, "pode deixar") entender que uma oposição ao discurso "lusófono" é, não só absurdo porque anti-empiria, mas também uma oposição ao organismo multilateral inter-estatal e aos seus objectivos políticos positivos de cooperação para o desenvolvimento.

Ora é exactamente o contrário, é porque considero errónea a redução linguística do conceito "lusofonia", é porque considero, portanto, errada a homologia lusofonia-CPLP [esta pode, e deve, desenvolver-se com outro quadro intelectual de apreensão da realidade, sem que isso signifique alterar a sua matriz linguística], que considero fundamental apartar dos esforços positivos (estatutários e pragmáticos) da CPLP à vontade "lusófona". Por outras palavras, à CPLP (à qual, e sem quaisquer niilismos, apenas se pode desejar uma maior eficiência), e em particular ao meu Portugal, é contraproducente o enfoque lusófono.

Um outro ponto. Afirma-se ainda no Blue Everest: "Revoltar-se filosoficamente contra o colonialismo do passado já não serve de nada". Parece-me aqui implícito que uma crítica à lusofonia surge como uma, serôdia, crítica ao colonialismo. Se é essa a interpretação que se pode fazer? (Diga-se que se é essa a interpretação isso é-me desesperante. Que mais poderei dizer para reafirmar que falo do presente e não do passado?).

Por um lado concordo no carácter vetusto do discurso anti-colonial. Sobre isso permito-me mesmo uma auto-referência a um texto [a ligação permanente não funciona correctamente: trata-se de um texto colocado em Janeiro de 2004, intitulado "Mil Desculpas] onde procuro, em registo jocoso, resmungar contra essa perenidade.

Mas por um outro lado esse afirmar da prescrição do discurso anti-colonial é uma extrema simplificação da realidade. Postula-se que (já) não interessa esse discurso! Mas é um postulado originário do contexto "ex-colonizador". Será um postulado eficaz no contexto "ex-colonizado"? Ou afirmamos que é argumento absoluto, desprovido de contexto? Mais, nele se nega assim a permanência da memória histórica da relação colonial, nega-se ser ela ainda a matriz (muito complexa) de relacionamento. Nega-se (incompreende-se) ser essa memória também factor identitário de algumas elites políticas (aqui dependerá muito dos contextos nacionais), e até de comunidades mais vastas. Desconhece-se (incompreende-se) o peso desses argumentos políticos na actualidade. Sublinho, não estou a defender a qualidade deste discurso/mecanismo identitário, estou a reconhecê-lo. [E, se empírico...]

Este "já não vale a pena" surge até expresso numa expressão em voga, o "encontro colonial". Para quem acha as palavras "lisas" (flat, perdoe-se-me o anglicismo), para quem acha "lusofonia" o falar português, também não achará estranho afirmar o "encontro colonial". Para quem ache as palavras rugosas, com múltiplos sentidos, compreenderá que é problemático assim apagar o conteúdo da história, em particular quando feita de violentos conflitos produtores de identidades. Das identidades actuais.

Este "já não vale a pena" de certa forma ilegitima a memória colonial. Ou melhor, afirma-a desnecessária. Considera que quem com ela trabalha, reflecte, o faz em deficit. Nem o nego nem o afirmo, acho que aqui estamos apenas no domínio do "dever ser" (e não do pragmatismo). Mas, e sabendo que o exemplo não está bem calibrado, lembro que em 1998 a representação espanhola na Expo de Lisboa distribuíu documentação onde se incluía uma gravura com o desembarque de Filipe I em Lisboa. E lembro que o sururu gerado bradou até em Maputo. Ridículo? Ou o peso identitário das relações complexas e conflituosas? E já nem digo nada da história da portugalidade, ou das relações com o Brasil.

Em suma, seria melhor para a CPLP, seria melhor para Portugal, que os conceitos que os norteiam fossem (auto)analisados. E não naturalizados. Não esquecendo que enquanto guias de acção eles terão alguma responsabilidade (não toda, alguma) na pobre empiria das tais relações inter-estatais, de cooperação para o desenvolvimento. Onde muito ultrapassa as dificuldades institucionais e financeiras e desemboca na incompreensão. A qual é potenciada pelas expectativa (falsa) da comunhão a priori, do (re)conhecimento imediato. E multiplicada pelo mito da língua comum como "vantagem comparativa" [sobre isso hei-de escrever].

Finalmente, o poder não é sagrado. Quando leio Seria ofensivo imaginar que quem redigiu estes estatutos ignorava o mundo em que vivemos e não sabia com o que contava relembro duas coisas: que, e repito, criticar o conceito "lusofonia" não é criticar os estatutos da CPLP; e lembro o texto que abaixo referi, onde Michel Cahen regista a espantosa retórica que acompanhou o surgimento da CPLP (mais gongórica a brasileira, reconheça-se), a qual poderá levantar dúvidas sobre o discernimento à altura. E não acho que seja ofensivo questionar a cosmologia de quem exerce o poder. Acho, aliás, dever. E, com toda a franqueza, prazer.

6 Comments:

Blogger jamiroo said...

Jpt, mil desculpas por o comentário não ter nada a ver com o post, mas o meu mail não está a funcionar.

Só dar as boas vindas ao teu regresso, e, apesar de eu andar meio desligado dos blogs, deixar o meu grande apreço pois custou muito abrir um ma-schamba vazio.

Um abraço bem forte, e um copo bem servido.

À tua!

12:04 da manhã  
Blogger Pitucha said...

Acho este debate sobre a lusofonia muito interessante e estou de acordo consigo em muita coisa, menos numa: a redução da lusofonia à língua portuguesa. Trabalho em ambiente multinational onde se misturam 25 nacionalidades com 21 línguas de trabalho. Surpreendentemente, há gente de todos os cantos a falar português. Mas nem assim a "ponte da lusofonia" existe entre nós. Falam português mas não conhecem Cesário Verde, não entendem a razão pela qual os portugueses se sentem mais próximos dos moçambicanos (para dar um exemplo) do que dos finlandeses (afinal, estão connosco na União Europeia dizem), nunca ouviram falar de Pepetela ou de Mia Couto, ignoram tudo da história e não compreendem porque não somos afinal uma província de Espanha. Mas falam português! E acham Lisboa o máximo, até porque agora está na moda ir lá passar fins de semana (talvez para quebrar o cinzento de Bruxelas).
Peço desculpa pelo tamanho do comentário ...
Um abraço

9:59 da manhã  
Blogger jpt said...

Obrigado cara jamiroo. E bom blog. Cara Pitucha, se há coisa que eu não faço é reduzir a lusofonia à língua portuguesa - é exactamente a ideia contrária. Quanto ao espaço, disponha, esteja à vontade, a casa é sua

1:17 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Como dizia um notável escritor brasileiro, n me lembro quem, disse e muito bem: para mim paês po pãos é igual, a recordação, o cheiro, o paladar que tenho na cabeça é a mesma. Quanto a mim, sempre falei português embora em certa época da minha vida dizia correntemente dezenas de palavras que não existiam em Portugal:Xicuembo,saguate,mocunha, milenga,maguérre,etc
Estava afalar o quê?

7:24 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

best regards, nice info »

8:26 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Where did you find it? Interesting read »

4:29 da tarde  

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