quinta-feira, março 31, 2005

[Emenda: Um leitor do Machamba acaba de me enviar um texto da autoria de Igor José de Renó Machado. Uma recensão crítica ao livro de Alfredo Margarido (2000), "A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses".

Como aqui tenho vindo a escrever sobre o asssunto "lusofonia" julgo de interesse colocar o recém-chegado texto. Com alguns pontos não concordo, com algum enfoque discordo radicalmente. Mas isso é natural, a cada um sua sentença. Mais tarde direi das minhas discordâncias. Às visitas já cansadas deste tema as minhas desculpas, é só clicarem "fuga". Aos que têm apreço por este "abaixismo" à mediocridade aparatchikista, obrigado.

[Actualização: Lutz Bruckelmann comentou algo que justifica leitura]

Eis:


MARGARIDO, Alfredo. 2000. A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses. Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas. 89 pp.
Igor José de Renó Machado
Doutorando, Unicamp

O livro A Lusofonia e os Lusófonos é um libelo contra uma forma hegemônica do pensamento social português, representada por intelectuais, colunistas de importantes jornais e intelectuais orgânicos do partido do governo (o PS) e do leque político que se estende até a extrema-direita. Sob uma ironia refinada e uma crueza ácida, Margarido põe à mostra as entranhas nada gloriosas dessa forma de pensamento que domina a Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa (CPLP) e a diplomacia portuguesa e que, embora ignorada no Brasil (como, ademais, o próprio Portugal), é insidiosa e efetiva na relação de Portugal com os países africanos que se livraram do jugo português após sangrentas guerras coloniais. É insidiosa também na organização interna da imigração para Portugal que, de acordo com as regras da União Européia, fecha as portas aos imigrantes das ex-colônias. Nesse sentido, a lusofonia afeta diretamente a vida dos cerca de 50 mil brasileiros imigrantes em Portugal, se contarmos apenas os números oficiais.

Margarido considera que a partir de 1960 se deu o rompimento de Portugal com o Atlântico, momento marcado pelas guerras coloniais, imigração e pelo nacionalismo racista. A lusofonia surge como ferramenta ideológica para recuperar esse espaço atlântico, apagando a história colonial e as relações polêmicas com os povos de língua portuguesa, mediante a tentativa de controle da língua "mãe". A importância da língua aumenta apenas quando desaparece o controle direto das populações e, após 1974, quando se lhe confere o papel que foi dos territórios colonizados: o de recuperar a grandeza portuguesa. Ao mesmo tempo, controlam-se cada vez mais as populações "residuais" dos tempos coloniais - os imigrantes - em Portugal e no restante da Europa. Exibe-se a contradição entre a pretensão de um "espaço lusófono" e o exagero da submissão portuguesa às leis de Schengen, que cria uma Europa racista, eugênica e desumanizada. E essa violência racista é dirigida, em cada país, a grupos específicos (em Portugal, são os cabo-verdianos o alvo preferencial do racismo, diz o autor, mas podemos acrescentar: os moçambicanos, guineenses e brasileiros).

O discurso da lusofonia encampa um projeto missionário de "civilização" após as guerras coloniais (nesse sentido, pós-colonial), agora focado na língua. O primeiro sintoma dessa virada acontece com a mudança de vocabulário após as independências africanas, similar à francofonia, criando um suposto "espaço lusófono" e uma história comum cor-de-rosa. A contradição aparente é que o atual europeísmo da União Européia condena os particularismos nacionais (principalmente o dos países mais pobres da União), o que impede a formação de espaços lusófonos, francófonos ou hispanófonos reais, como fica claro pelas políticas de controle de imigração cada vez mais duras e desumanas na Europa. Só há e só pode haver espaço lusófono em um discurso mítico.

Margarido critica a visão lusófona do passado, como se o "Outro" só existisse após o encontro com algum navegador português, esquecendo-se a outra face do encontro: a invasão. Além disso, faz digressões sobre o trauma ocorrido com a independência do Brasil em 1822, que levou o discurso colonial português a reafirmar os "direitos" às demais colônias e populações. Esse trauma surge e ressurge de várias maneiras: ou escamoteando a independência brasileira como sendo um fator português, dado que foi proclamada por D. Pedro I, ou vendo no Brasil um Estado-filho ou Estado-irmão mais novo, implicando sempre laços que devem manter tais países unidos (se o Brasil continuar sempre infantilizado).

A partir da década de 20, os nacionalistas brasileiros passam a se preocupar com o povo, e Gilberto Freyre vai derivar o Brasil do apetite sexual português. Mas o luso-tropicalismo só existe em Portugal no pós-45, quando o que já era ruim é mutilado para servir à hegemonia colonial portuguesa, fechando os olhos a toda sorte de violências (que culminaram nas malfadadas guerras coloniais), barrando inclusive a possibilidade de modernização do país. Aqui não se pode deixar de dizer que Margarido produz um "nacionalismo alternativo", que luta contra a lusofonia para que Portugal chegue à modernidade. Como um exilado permanente, lecionando na França, e como um dos principais críticos do colonialismo português, Margarido pode ser visto como um intelectual "contra-hegemônico".

Outra contradição da lusofonia é a atual preocupação com a língua, que nunca foi objeto de cuidados quando da época colonial. No Brasil e nos países africanos (até 1961) não se criaram universidades e a política de não-educação era uma forma de manter o estatuto de inferioridade do colonizado. Os africanos sem escrita eram considerados "fora da história" e só "entram na história através das formas de dominação" (:51). A língua passa a ser, depois de ignorada sistematicamente pelo colonialismo tardio português, o elemento de continuidade da dominação colonial, e "a exacerbação da 'lusofonia' assenta nesse estrume teórico" (:57). Recorrendo a Saussure, o autor demonstra como uma comunidade lingüística é baseada na religião, convivência, defesa comum etc., o que é definido como etnismo. A relação desse etnismo com a língua é uma relação de reciprocidade, ou seja, é a relação social que tende a criar a língua, portanto, a língua não pode ser a pátria de ninguém. Essa fórmula pessoana apaga o peso dos "costumes" nas considerações sobre a língua, fazendo com que os povos com outros costumes possam ser lusófonos apenas por falarem português (minha pátria é minha língua... mas quem é que manda nessa pátria?). A idéia de uma pátria lingüística é uma hierarquia que apenas repõe aquela do Império.

É interessante ver o papel da língua brasileira em Portugal, através do avanço da mídia brasileira na Lusitânia. Na verdade, essa presença influenciadora é profundamente incômoda para a intelectualidade portuguesa, que acaba por reduzi-la a um sinal da "criatividade" natural do brasileiro. Esse falar brasileiro "criativizado" pelos portugueses repõe o mesmo preconceito lusófono: a criatividade e a criação artística são o outro lado da selvageria e, portanto, a natural criatividade do brasileiro é mais um sintoma de sua inferioridade intelectual, pois ao criativo é negada a razão, como forma de tentar conter dentro das estruturas de um lusofonismo detestável a presença da fala brasileira.

Aqui se pode questionar Margarido, mesmo reconhecendo a irônica provocação que é elevar a língua brasileira ao status de "língua oficial" da suposta lusofonia. Para tentar desmontar e provocar a intelectualidade portuguesa, profundamente incomodada com a presença do falar brasileiro, Margarido argumenta que é a língua brasileira a mais bonita, maleável e "erótica" e, portanto, a única candidata a uma suposta língua lusófona. É questionável recorrer, para criticar a lusofonia, à imagem estereotipada que ela própria reproduz, ao acentuar o caráter "erótico" do português falado no Brasil. Uma das características da lusofonia é a separação entre civilização e selvageria, na qual Portugal representa o processo civilizatório e a língua equivale a "civilizar". Se assim é, o apelo à "natureza erótica" da fala do brasileiro é mais um recurso, mesmo quando usado ironicamente, à lusofonia, pois o brasileiro erotizado é rebaixado ao pólo "selvagem" dessa divisão básica do discurso lusófono. De fato, não é a fala do brasileiro que é erótica (afinal, o que é isso?), mas é porque ele é visto de modo erotizado que a fala é considerada erótica. Isto por si só dá a entender ao leitor brasileiro a força desse discurso lusófono em Portugal, pois nem mesmo seu crítico mais ácido consegue se desvencilhar dele completamente.

Ora, a lusofonia não passa de um "doce paraíso da dominação lingüística que constitui agora uma arma onde se podem medir as pulsões neo-colonialistas que caracterizam aqueles que não conseguiram ainda renunciar à certeza de que os africanos [e brasileiros, acrescentaria] só podem ser inferiores" (:71). A lusofonia serve como ferramenta de manutenção das distâncias racistas em que se baseou o discurso colonial após seu fim sangrento, apagando o passado e recuperando a antiga hegemonia. O que Margarido não diz explicitamente, mas que se pode derivar de seus argumentos, é como serve a lusofonia de estrutura da ordem hierárquica que escalona os imigrantes, "resíduos" do Império que procuram em Portugal fugir ao desastre que em casa foi a herança portuguesa. É uma suprema (e dolorida) ironia que os imigrantes sirvam como o campo preferencial de reordenação simbólica da ordem imperial.

Embora ao leitor brasileiro o tema da lusofonia debatido por Margarido praticamente não faça o menor sentido (o que é ótimo e dói nos ouvidos portugueses), para os países africanos recém-saídos do - e destruídos pelo - período colonial, a temática lusófona é, no mínimo, repugnante. Mas é preciso alertar ao potencial público objeto da ideologia "lusófona", os falantes de português, a não jogar o jogo da lusofonia, seja por subordinação causada pela miséria (no caso de Moçambique, Angola, São Tomé, Cabo Verde e Guiné), seja por desprezo (no caso do Brasil). Entre outras causas, é justamente por esse grande desprezo da opinião pública brasileira, que o mecanismo da CPLP pode curvar-se ao lusofonismo tacanho do governo português. Para imigrantes brasileiros e africanos das ex-colônias, entretanto, o discurso da lusofonia é uma armadilha terrível, pois o espaço lusófono, como mito que é, nunca se realizará na prática. A busca por direitos "especiais" baseados na lusofonia por parte de associações imigrantes oriundas do desastre colonial português, além de infecunda, apenas reforça essa "ideologia-estrume" (no dizer de Margarido).

9 Comments:

Blogger Lutz said...

Sigo esta por vezes tão dramática questão da lusofonia com muita curiosidade, quase diria voyeurismo. Problemas de identidade são um tema imperecível para um alemão, e é educativo (e de certa forma, perdoam-me: reconfortante) ver como outros lidam com os seus, que são, não há dúvida, diferentes.
Embora que conhecendo os traços gerais da vossa história colonial, estou muito alheio às implicações psico-sociais que ela vós legou, tanto aos portugueses como aos cidadãos nacionais das ex-colónias.
Este artigo em concreto assustou-me por ser tão impregnado de ressentimento. (Que pode ter origens talvez justas, mas que não ajudará a melhorar as coisas...)
E, falando da identidade, não percebi de todo a identidade, a perspectiva de quem o escreveu:
Fala um português que se queixa de ser tratado como se fosse de segunda classe (isso parece-me indicar a queixa sustentada do regime de Schengen) ou seja, um habitante ou prentendente a habitante do Portugal continental? Ou fala um cidadão dum estado independente saido duma ex-colónia, que se queixa que Portugal ainda não saldou a divida para com ele? Mas como é que se quer paga esta dívida, cuja justa existência não quero, à partida, pôr fora de questão? Com dinheiro? Com o direito de residência no espaço Schengen? Com uma intervenção política da ex-potência colonial em estados que são independentes há mais de 30 anos?
Parece-me falar aqui alguém que procura a solução dos seus problçemas nos outros, e não em si mesmo. Sabe-se, que isto é característica essencial da menoridade, e sabe-se que não há culpa de outrem, que absolve uma pessoa, um povo, ou uma nacão, de assumir a sua própria e plena responsabilidade pelo seu destino.

12:49 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Interessante de ler, tanto o texto que expões como o comentário do Lutz _ abraço, IO.

1:25 da tarde  
Blogger jpt said...

excelente lutz, excelente, lutz. o meu comentário fica para o fim-de-semana, esta semana estou ainda mais atafulhado do que é costume

3:47 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Todos nós conhecemos a velha desculpa portuguesa do, "coitadinhos de nós, eles não nos compreendem, isso é falta de identidade, ressentimento e blá blá blá" por isso o comentário infeliz carregado de racismo e preconceito do senhor lutz é mais do que esperado assim como os subsequentes "eu concordo" que vem abaixo, exatamente por essa postura arrogante e de tentar distorcer as palavras do texto cujo autor Alfredo Margarido é português, e logo por isso mesmo o blá blá blá tipico de "ressentido", "sem identidade" etc... é pura estupidez, mostra que esse senhor lutz nem sequer leu direito o texto ou sequer se prestou a tentar entende-lo e tenta menosprezar o brasileiro que o comenta dizendo que quem comenta algo que um português escreve possuiu "menoridade" ou seja é inferior ao português atitude essa que é comentada no próprio livro do senhor Margarido a tentiva portuguesa de sempre inferiorizar os individuos das ex-colonias como se eles fossem selvagens incapazes de pensar por si próprios, e sem mais perder tempo tentando comentar o que não adianta ser comentado ficou claro que a tal Lusofonia é uma grande estupidez e no Brasil continuará no mesmo estado em que se encontra hoje em dia ou seja inexistente mesmo porque o Brasil não precisa fazer intercâmbio com pessoas racistas e preconceituosas pelo contrário o objetivo do país é exatamente extinguir esse tipo de gente se é que podemos chamar de "gente" esses vermes

9:19 da manhã  
Blogger cbs said...

Nem tinha visto isto.
Mas o senhor Anónimo merece a designação que usa.
E retrata, em si próprio muito bem, aquilo que julga criticar.

9:33 da tarde  
Blogger jpt said...

pois eu não tinha acabado de ler o comentário anonymous, dei-lhe uma diagonal. Agora li-o todo e até tem piada - eu pelo menos rio-me nesta madrugada.
É interessante, ao leitor que me enviou o texto / recensão respondi-lhe, agradecendo o envio e dizendo-lhe que o iria colocar e que discordava de alguns pontos e enfoques na leitura do autor. Respondeu-me o emissário, lesto, que não o surpreendia, e que "vocês portugueses têm a mania de dizer a última palavra sobre tudo"...ele sai-me cada um. Bem, agora vou dormir, para o meu buraco de verme, enquanto não sou exterminado pelo tal país "exterminador", decerto implacável? Lutz, exterminadores implacáveis é mais lá para as tuas zonas, os vizinhos austríacos, não é? futuros californianos, I mean, não vás entender mal

4:39 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Achei a resenha de Renó Machado interessante mais pela sua versão do que os brasileiros pensam acerca da lusofonia, do que própriamente pelo que refere do texto de Margarido (com quem concordo quase totalmente!).
Renó Machado esquece que se Portugal colonizou e escravizou, e tenta ainda em vão manter a hegemonia cultural e política perdida faz tantos séculos, o Brazil por seu lado também exerceu o papel de colonizador no que respeita a por exemplo Angola e mesmo ao próprio Portugal. Que outro império mudou a sua metrópole para uma colónia, que outro colonizador temeu tanto o poder económico e político de uma colónia? E que dizer das relacões de colonialismo interno que existem na sociedade brasileira? Quem se lembra do discurso e comemoracões oficiais acerca da "descoberta" do Brazil?
É curioso pensar que o lusotropicalismo e a idelizacão das caravelas não sobrevive só em Portugal mas têm-se mostrado bem vivos no discurso de muitos politicos e intelectuais brasileiros...Nacionalismos à parte, e perdoada a descontextualizacão da famosa frase pessoana, estou plenamente de acordo que se houver uma "lusofonia" ela deve ser lusa só de nome e descentrada de visões colonializantes de culturas e línguas, portuguesas ou outras.

7:07 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Nations, destiny and full national independence. My dear german friend your comments sound like af good old essentialistic melody we lusofones know so well!!!
And by the way big crimes like colonialisme, slavery and extremination kan never be repaid. We all must learn to leave with them and build on from there into a hopefully more just future.
Open Europe to the ones who seak a better life and forget the fear..

7:55 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Date: Thu, 17 Mar 2005 10:14:29 -0800 (PST)
From: "manuel torres" ca23195@yahoo.com Add to Address Book
Subject: Re: ontem
To: "laura Mais" helena_finance@hotmail.com

Ainda bem amor q ficas a conhecer o José Saramago, comunista e prémio Nobel da Literatura. Assim ficvas a saber q existenm portugueses com valor. A tua única experiência foi comigo e assim elevas a consideração dos portugueses.
Amo-te


laura Mais helena_finance@hotmail.com wrote:
Amor,

ainda ontem não sei se comentei, (pois vc só estava pensando em sexo), encontrei ao sair da Faculdade 2 amigas da época em que lá cursei a faculdade, uma foi aluna e a outra professora, Zilma e Marta (esta ainda é professora lá). Elas são pessoas bem diferentes, "dos outros" que conheceu aqui. Gostam de leitura, musica, conhecimento, enfim, no quesito cultura, são pessoas bem esclarecidas, e de quem gosto muito........ então ficamos por uns 40 minutos conversando.
Estávamos falando em livros, quando a Marta me indicou 3 livros: O evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a cegueira e o Homem Duplicado....... todos do Saramago, aí eu pensei: " eu nunca li Saramago", ela disse: todos são excelentes, maravilhosos........... mas em momento nenhum me toquei...... JOSE SARAMAGO, nacionalidade: Portuguesa. Isto só vi hoje ao procurar estes livros na internet.......... Tá vendo amor o mundo conspira a favor...... hahhahhahhaaaaaa,
agora vou aqui ficar a ler autores portugueses.......

Te amo muito.

Sua mullher

L Helena


Esta mensagem trocada entre mulher brasileira e marido português é bem esclarecedora da ignorância que sustenta este mundo inventado da lusofonia. Embora uma ignorância que atravessa mesmo as fronteiras simbolicamente construídas desse mundo da lusofonia.

Uma brasileira que não conhecia Saramago!

Mais grave ainda é pensar-se que a brasileira "cursou" numa Faculdade. Presume-se que numa Faculdade Brasileira.

Uma presumível licenciada Brasileira com mais de 30 anos que não conhece Saramago! Um escritor português da actualidade! Mais, um prémio Nóbel! Mundialmente conhecido e lido!

Presume-se também que se trata de uma mulher de um meio sociocultural de nível inferior. Visível o fascínio que provoca o encontro casual com uma outra licenciada brasileira e uma professora universitária brasileira. A ruptura com o seu quotidiano marcado pelos "outros".

Será essa a razão da ignorância? Então a Universidade não deveria corrigir esses bias sociais?

Tenho excelente opinião das universidades brasileiras. Conheço algumas de excelente nível internacional. Conheço alguns curricula. Sei também os estudos aprofundados sobre a literatura portuguesa desenvolvidos por brasileiros. Exemplo de excelência os estudos sobre Fernando Pessoa. Estão, pois, reunidas as condições para qualquer universitário brasileiro de qualquer área científica ter acesso a Saramago. É pela certa obrigatório que leia Saramago.

Aqui por Portugal, não é de surpreender que os estudantes do ensino secundário sejam obrigados a ler Saramago. Afinal é um autor português contemporâneo e, por maioria de razão, um prémio Nobel.

Permanece a dúvida se os universitários portugueses leram de facto Saramago. Apenas conseguirão dizer de Saramago as suas tendências ideológicas e o ter sido laureado com um Nobel da Literatura?

Acredito que os autores desta troca de mensagens não sejam representativos dos universitários portugueses e brasileiros. Isto no caso do marido ser um licenciado português.

Mas as universidades brasileiras e portuguesas inquietam-se com a ignorância sobre um património partilhado e esforçam-se por formar licenciados competentes e esclarecidos, mas também homens e mulheres que possam contribuir para a dignificação da Lusofonia. Ler, ou pelo menos saber que existe, Saramago faz parte, com toda a certeza, dessa estratégia comum. As universidades querem-se orgulhar dos seus estudantes.

Mas a troca de mensagens entre marido e mulher levanta outras questões interessantes da lusofonia.

Até que ponto a tese do luso-tropicalismo de Gilberto Freyre é ainda actuante na construção do mundo lusófono?

As novas tecnologias estarão a transformar-se num importante instrumento da apetência sexual do português pela mulher dos trópicos, ocupando o espaço simbólico de Casa Grande e Senzala?

Ou será que homens e mulheres da lusofonia democratizam as relações de intimidade e realizam viagens reais e virtuais em todos os sentidos, contribuindo desta forma para a construção do mundo da lusofonia?

7:09 da tarde  

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