terça-feira, março 22, 2005

Latinidade

1. Da Evolução (ou, línguas de civilização, línguas de cultura?):

"Da colonização nasceram, assim, povos latinos de todas as cores, grandes e pequenos, repartidos pelos quatro continentes. Alguns atingiram a maturidade, efectuaram uma síntese duradoura dos contributos europeus e indígenas; outros, sobretudo em África e no Pacífico, continuam no estado de precipitação instável". (197)

"O peso de uma língua depende de um certo número de condições todas elas necessárias, não sendo nenhuma suficiente. Quer se trate do pleno emprego da língua nacional, ou da capacidade de uma língua se impor nas escolas estrangeiras, como segunda língua, as principais condições requeridas, indissociáveis, são o número e o trabalho dos homens, este último criador de dinheiro. Esta condição dual pode exprimir-se em termos de contabilidade nacional: um grupo linguístico que não fabrique um PNB de pelo menos 1000 biliões de dólares (assegurando um PNB per capita de pelo menos 200 dolares) já não é, nos nossos dias, culturalmente protegido." (211-212)

2. Do Francês

"Quanto ao Quebeque, emblema da América francófona, e porque não da América Latina do Norte, como se encontrará dentro de vinte ou trinta anos? O Quebeque devia tornar-se independente ou ter mais filhos, e mesmo, se possível as duas coisas". (199)

3. Do Francês e da Contiguidade Territorial

"Podemos mesmo sonhar com um conjunto económico equatorial de quatro milhões de quilómetros quadrados, de Douala a Lubumbashi, cerca de 130 milhões de habitantes em 2020." (199)


4. Do Português

"Em 2020, segundo o Population Reference Bureau de Washington, a África Portuguesa [meu sublinhado, JPT] terá quase 60 milhões de habitantes, distribuídos por mais de 2 milhões de kilómetros quadrados. [...] A guerra civil na África Portuguesa [meu sublinhado, JPT], o mau governo e a má administração em certas regiões do Brasil, o capitalismo selvagem em outras regiões, ainda entravam o desenvolvimento agrícola dos grandes países lusófonos (...). (209)

5. Da inexistência das outras línguas, da a-conceptualização do outro (do agente glotocida?).

"Contudo, o preço a pagar para conservar a sua língua, um mínimo de originalidade cultural e, portanto, a sua alma e a sua razão de ser num mundo ameaçado de nivelamento pela base, parece irrisório..." (...) "Preservar a língua e a cultura por meio de uma política coerente, esperando por melhores dias em que a industrialização permitirá tirar partido do peso demográfico, é, portanto, o imperativo do mundo românico."(214)

[Philippe Rossillon, "O Futuro da Latinidade", in Georges Duby, (org.) A Civilização Latina. Dos Tempos Antigos ao Mundo Moderno, Lisboa, D. Quixote, 1989]

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Poder-se-á sorrir, desvalorizando estas veras pérolas. Mas o autor era, à altura, Secretário-Geral da União Latina - não se lhe pode negar a legitimidade do pensamento, como representante do mainstream.

Entretanto o livro em questão é um verdadeiro tratado sacralizador da ideia de "latinidade" do Século XXI: organizado pelo monstro Duby, isso possibilita apelar ao passado como caução (quem contesta Duby?), integra entre outros, o sábio-mor Eco, o sábio do quasi-hoje Mauro, o linguista Houaiss (que, justiça seja feita, não refere a África Portuguesa). E, sacralização máxima, até Homero, perdão Borges. E assim se afirma o óbvio.

2 Comments:

Blogger Lutz said...

Wow!
(...vou ter de aprender dizer isso em francês!)

2:43 da tarde  
Blogger jpt said...

Essa onamatopeia é em que língua?

5:05 da tarde  

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