sexta-feira, março 18, 2005

Lusofonia (os medicamentos não fazem efeito?, invoquem-se os antepassados)

"...a lusofonia é apenas o resultado da expansão portuguesa e da língua que esta operação teria espalhado generosamente pelo mundo fora. Ou seja, seria menos o resultado de um projecto, do que a consequência inesperada de uma maneira particular de circular pelo mundo. Nesse aspecto, a portugalidade opõe-se certamente à lusofonia: a primeira é o resultado de uma oposição constante aos espanhóis (...) ao passo que a lusofonia seria a consequência quase passiva da expansão e da banalização da língua.

A criação da lusofonia, quer se trate da língua, quer do espaço, não pode separar-se de uma certa carga messiânica, que procura assegurar aos portugueses inquietos um futuro senão promissor, em todo o caso razões e desrazões para defender a lusofonia.

A independência das nações africanas, obrigou os teóricos da colonização portuguesa a modificar de maneira substancial o seu vocabulário. Tal como se verificara já no caso francês, que já nos anos 1962 começou a banalizar a noção de "francofonia" [nota de rodapé: "...o sentido actual...visa manter o espírito colonial, salientando a importância do cimento linguístico".] Respeitando um velho movimento de submissão cultural, não puderam os portugueses furtar-se ao modelo tradicional, tendo criado, após 1974, a lusofonia.

Uma parte deste esforço teórico baseia-se na língua: a utilização do português seria a prova da existência de uma "comunidade lusófona". Outros mais argutos, sublinham a importância do "espaço lusófono". Dependendo embora da língua, seria também, quando não sobretudo, a consequência de uma "história comum"..." (13)

"Verifica-se, após 1974-1975, uma modificação subtil mas constante, cabendo agora à língua portuguesa - que se confunde com uma falsa língua lusa- a tarefa que foi durante muitos anos a dos territórios. Portugal passou a ser um país pequeno, mas dispondo de um agente específico, a língua portuguesa, que lhe permite recuperar a sua "grandeza". Trata-se de uma prótese singular, mas que começa a revelar-se eficaz, permitindo recuperar - de maneira quase glotofágica - as culturas dos Outros." (28)

"Hoje, uma fracção substancial dos teóricos da "portugalidade", fazem da língua o agente mais eficaz da unidade dos homens e dos territórios que foram marcados pela presença portuguesa. Não tendo havido uma grande reflexão anti-colonialista antes das independências, registou-se a necessidade urgente de organizar uma ideologia explicativa: os portugueses foram obrigados a renunciar à dominação política e económica, mas procuraram assegurar o controle da língua. (...) se a língua não for capaz de assegurar a perenidade da dominação colonial, os portugueses ficarão mais pequenos. A exarcebação da "lusofonia" assente nesse estrume teórico..." (57)

"Por essas razões a língua acabou por se transformar, à nossa vista, com o nosso pleno conhecimento em agente suficiente de dominação. É certo estarmos perante uma reformulação da teoria, pois Gilberto Freyre considerava que a sexualidade, a "pica", era suficiente para assegurar a lógica e a perenidade dessa dominação. Se bem que não se tenha eliminado a fortissima contribuição da sexualidade, a verdade é estarmos hoje perante teses mais asseptisadas, que confiam à língua a tarefa principal de manter e de alargar o campo da dominação portuguesa". (74)

"O meu intuito era muito simples: quis mostrar como nos recusamos, que como colectividade, quer como indivíduos, a analisar de maneira sistemática as técnicas utilizadas para tratarmos os Outros. O discurso "lusófono" actual limita-se a procurar dissimular, mas não a eliminar, os traços brutais do passado. O que se procura de facto é recuperar pelo menos uma fracção da antiga hegemonia portuguesa, de maneira a manter o domínio colonial, embora tendo renunciado à veemência ou à violência de qualquer discurso colonial." (76)

[Alfredo Margarido, A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses, Lisboa, Edições Universitárias Lusófonas, 2000]

1 Comments:

Blogger Lutz said...

Obrigado pelo esclarecimento!

2:00 da tarde  

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