sábado, março 19, 2005

O véu da língua. E o veneno da mamba.

Não quero eternizar aqui a argumentação sobre a falácia "lusófona". Mas uma nota mais, com alguns pontos, e com um profundo desagrado.

O véu da língua.

No blog Blue Everest, que também a abordou, apresenta-se um belo texto que me permito re-citar, porque sintetiza parte do que quis afirmar.

"Il y a quelque chose de drôle, à vrai dire, dans le fait de parler et d'écrire ; une juste conversation est un pur jeu de mots. L'erreur risible et toujours étonnante, c'est que les gens s'imaginent et croient parler en fonction des choses. Mais le propre du langage, à savoir qu'il est tout uniment occupé que de soi-même, tous l'ignorent. C'est pourquoi le langage est un si merveilleux et fécond mystère : que quelqu'un parle tout simplement pour parler, c'est justement alors qu'il exprime les plus originales et les plus magnifiques vérités. Mais qu'il veuille parler de quelque chose de précis, voilà alors le langage et son jeu qui lui font dire les pires absurdités, et les plus ridicules. C'est bien aussi ce qui nourrit la haine que tant de gens sérieux ont du langage. Ils remarquent sa pétulante espièglerie ; mais ce qu'ils ne remarquent pas, c'est que le bavardage négligé est justement le côté infiniment sérieux de la langue. Si seulement on pouvait faire comprendre aux gens qu'il en va, du langage, comme des formules mathématiques : elles constituent un monde en soi, pour elles seules ; elles jouent entre elles exclusivement, n'expriment rien si ce n'est leur propre nature merveilleuse, ce qui justement fait qu'elles sont si expressives, que justement en elles se reflète le jeu étrange des rapports entre les choses. Membres de la nature, c'est par leur liberté qu'elles sont, et c'est seulement par leurs libres mouvements que s'exprime l'âme du monde, en en faisant tout ensemble une mesure délicate et le plan architecturale des choses. De même en va-t-il également du langage : seul celui qui a le sentiment profond de la langue, qui la sent dans son application, son délié, son rythme, son esprit musical; - seul celui qui l'entend dans sa nature intérieure et saisit en soi son mouvement intime et subtil pour, d'après lui, commander à sa plume ou à sa langue et les laisser aller : oui, celui-là seul est prophète. Tandis que celui qui en possède bien la science savante, mais manque par contre et de l'oreille et du sentiment requis pour écrire des vérités comme celles-ci, la langue se moquera de lui et il sera la risée des hommes tout comme Cassandre pour les Troyens." (Novalis)

Para uma argumentação neste sentido poder-se-ia também apelar a linguistas ou a antropólogos p.ex. Mas está assim muito bem. Aqui se expressa a dimensão agregadora, identificadora, da língua conceptualizadora/formadora. E daqui também retiro, a um nível, a necessidade de não postular "lusofonias" em universos que não o são.

Lendo este texto, aceitando-o, e utilizando-o, poder-se-á dele retirar, implicitamente, a histórica incapacidade da modernidade portuguesa em estudar e apreender o outro, de o compreender como sujeito e não mero objecto. Incapacidade constantemente reafirmada no discurso actual, sintetizada e cristalizada na pacífica lusofonização de pendor cultural(ista) e político que aquele ecoa.

Note-se, quatro séculos de Macau não criaram uma sinologia proporcional, a proximidade magrebina não originou uma abordagem à língua e cultura árabe, quatro séculos de possessões indianas idem. E um século de colonialismo em África deixou um escasso trabalho da bantologia linguística, moribundo se não mesmo falecido na actualidade. Porque há um traço recorrente, o vazio alhures. Persistente.

É esse vazio alhures que se impõe no caso da moderna "lusofonia", com mais ou menos recurso a uma fundamentação poético-épica. Possibilitada e produzida pela tábua rasa que se faz do diferente outro - se este fala português tem uma identidade (cultural, e daí política) comum. Esquecendo ser a minoria que fala português, esquecendo ser a máxima minoria que fala português como língua primeira. Esquecendo que mesmo nestes casos o substrato cultural não se cria apenas numa geração de língua como estruturadora da classificação e mentalidade. Tanto esquecimento, ou seja, o outro só existe no que é (quase) como nós.

E logo permitindo o salto da língua (pouco) comum à identidade cultural. E desta à comunhão, um outro pequeno passo. Comunhão de afectos e de interesses, cujos ecos encontramos amíude em literatura oficial, oficiosa e outra. E na oralidade anónima, quase sempre paternalista.

E é esse o fundo ideológico que afirma a comunidade de países e de populações. A comunidade de interesses. Como se fosse essa uma necessidade histórica. Tudo rápido, tudo impensado. Porque tudo assente nesse (desejado) desconhecimento, a tal simplificação, a tal linearidade. Sob o véu da língua.

Depois há ainda a história, a mais longínqua e a mais recente, como húmus da tal "comunhão" afirmada (e desejada). História que assim tem que surgir asséptica, esvaziada do que não produza tal objectivo. Teleológica. Mais uma vez, simplificação, apagamento. De novo o véu da língua, nada mais.

[permito-me a auto-referência. Para quem se interesse e tenha paciência repito uma velha referência que fiz a um texto não bloguístico, longo e porventura maçudo, onde procuro abordar a ideia "lusófona" em termos da conjunturalidade, temporal, geográfica, sociológica, do relacionamento entre populações. Onde não afirmo antinomia ou comunhão apriorística. Modesta tentativa para fugir ao tal véu da língua. E a qualquer estigmatização. E para que não se diga que sou inimigo de relacionamento]

2. Do veneno da mamba.

Entretanto, ao longo do bloguismo tenho tido muitas discussões com o Tugir, um blog assumida e activamente socialista, discussões na sua maioria por isso mesmo. Por vezes brincou-se. Por vezes chispou. Agora virou discussão sobre lusofonia. Cada um terá a sua opinião e não vou insistir nos meus pontos de vista.

Ontem aqui citei Eduardo Lourenço, no seu alerta:"Os portugueses que não pensam assim não são bons portugueses." Hoje leio que LNT, depois de tantos diálogos e discussões havidos, entre uma série de pedradas absurdas, inova na minha categorização. Para ele, agora, em contexto de discussão sobre a "lusofonia", e porque dela crítico, passei a ser um português moçambicano. E, por mais voltas retóricas que LNT venha a dar, esta nova categorização é óbvia, significa que para ele a minha atitude diante da lusofonia se origina num esbatimento (mesmo que por complexificação) da minha identidade portuguesa. Ou seja, se não aceito um discurso corrente, mainstream, é por deficit identitário: "se não pensas como nós (já) não és dos nossos". O que me reduziria, obviamente, a legitimidade e a acuidade opinativa. Uma, não pouco elaborada, forma de exclusão. Exactamente o que está inscrito na tal citação de Eduardo Lourenço.

Poderia adjectivar ideologicamente essa atitude de LNT. Ou poderia graduá-la de melhor a pior. Ou poderia calá-la, encerrada que está num texto absurdo, de imputações excêntricas e infalsificáveis. Ou posso resumi-la, que é o que me ocorre: é execrável.

Mas não original. Tem geneologia e marca de água.

Passo adiante. Mas sabendo, com a minha idade, que esta gente é mamba.

4 Comments:

Blogger Lutz said...

José Flávio, tenho aprendido imenso com a tua série de posts sobre a "lusofonia", que é do melhor e mais instrutivo que tenho lido em ano e meio que ando no bloguismo. Sendo um genuino "português alemão" acho ter um juizo sobre essa matéria, que certamente sofre do deficiente conhecimento da causa, mas por outro lado beneficia do não envolvimento emocional e identitário.
À partir desta minha posição, frágil e descomprometida, concordo muito contigo.

Também acompanho-te na tua identificação da súbtil tentativa de exclusão, da que foste vítima por parte do LNT. Mas já não te acompanho nas conclusões categóricas que lhe tiras, e nas generalizações, que não são em nada melhor do que a postura que criticas. "Esta gente", quem é: os socialistas?
Nada tenho que censurar a tua ira, mas que ela te tolde o discernimento, sim. E ver que um deslize - diria eu, um falhanço freudiano que põe a nu um preconceito provavelmente sub-consciente - te leva a deitar mais um interlocutor, que até ontem trataste como pessoa respeitável, no caixote de lixo de gente "mamba", preocupa-me, nem por último, a pensar no meu próprio futuro como teu blogo-amigo.

1:48 da manhã  
Blogger jpt said...

Lutz, a gente mamba é aquela que diz "se não pensas como eu/nós não és dos nossos" - cuida-te com a picada. Não vejo nenhuma relação com nenhum partido em especial, há-os em todo o lado, em partidos ou não partidos. [essa tua conclusão só pode ser produzido por defeito do meu texto, disse que o blog tugir, onde o LNT é 50%, para situar a perenidade das minhas discussões/diálogos com ele. Só isso] Parece-me explícito o artifício exclusivo ali assumido (tal como tu também o percebeste). E era o que faltava aceitar lições de portuguesismo. Com que autoridade? Com que critérios?
Abraço.

2:09 da manhã  
Blogger Lutz said...

Respondi no Tugir ao LNT, que se me dirigiu em relação à triste desavença maifesta neste post. Escrevi:
"Caro Luis,
é verdade quando escrevi o comentário em questão, fiz uma leitura, que concluiu pela referida "subtil tentativa de exclusão". E ainda falei de "preconceito". Retiro o "preconceito" por se tratar duma especulação, da minha parte, sobre os seus motivos, o que sei, mas as vezes esqueço, ser inadmissível.
No mesmo espírito quero reformular a "súbtil tentativa de exclusão", que carece do mesmo defeito, mantenho no entanto ter identificado uma "súbtil integração dum argumento ad hominem", que pode muito bem ser inocente - como diz-, mas que não deixa de permitir a leitura que o JPT - e eu - lhe fizemos.
Lamento que um tema tão interessante e importante acabou de ser " envenenado"."

12:18 da tarde  
Anonymous nropa said...

Lutz agradeço a companhia. "Quase em Português"? com tanta subtileza na formulação? (ícone de sorriso...).
Ainda não li o que LNT escreveu (só o naco via technorati), hei-de lá ir. Mas, honestamente, já o disse, sejam quais forem os artifícios retóricos suplentes aquilo está lá - e tens razão, não devemos especular sobre intenções. Mas eu também não acredito em inconscientes colectivos, a tornarem-nos ventríloquos. Dele saíu um texto sarcástico, desagradável, "a (minha) inspiração divina", "a (minha) propriedade do terreno africano", etc - está no direito dele, e eu não sou virgem na porrada escrita. Mas não me venha doirar pílula, dizendo que leio o que lá não está ou que grito não sei o quê. Nem que estou a dizer mal do partido.
Tens razão, o assunto é interessante. E estará envenenado. Mas não por este azedo. Este azedo é eco do veneno - naturalizador - do cÂntico. Fosse mais fácil discuti-lo e não vinha isto ao de cima.
Será assim tão difícil compreender que nem teorica nem pragmaticamente a ideia colhe extra-muros?
Há mecanismos de silêncio espantosos: li um texto que se apresentava como trecho de conferência (Trabalho intelectual). E passado pouco tempo segue-se-lhe uma crítica ao que os intelectuais dizem. Sou eu que estou Lenny? Ou a maluquice não é só minha?
Abraço

9:48 da tarde  

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